26 de março de 2010

O Rejuvenescimento Político em Portugal

Consegui.
Foi um mês fodido. Sim, fodido. É a única palavra que me vem à cabeça capaz de descrever o anterior, e por muitos já esquecido, mês de Novembro. Estávamos ainda em 2009, eu andava ainda entretido a desmembrar lentamente o conceito de "Jornalismo" e lembro-me bem que estava, constantemente, um frio de ananases.
Deixemos isso. Quis vir aqui hoje deixar-vos algo. Peço, antes de mais, muitas desculpas pela minha ausência e pela consequente ausência de textos. A universidade é mesmo um bicho de sete cabeças, um daqueles bichos que nos dá vontade de sorrir e sonhar com um futuro cheio de possibilidades e caminhos. Sonhar nunca fez mal, espero eu.
O que vão ler a seguir é uma reportagem de minha autoria escrita para o jornal da minha universidade, a Escola Superior de Comunicação Social. O jornal chama-se "8ª Colina" e sai, imaginem só (!), em associação com o jornal "Público". Sim, com o jornal "Público". É quase a realização de um sonho, de um daqueles sonhos que referi umas linhas acima.
Guardei este post para hoje, porque foi hoje que esse sonho saiu à rua acompanhado de uns tantos mais textos e de uns tantos mais jornalistas com os quais gostaria de vir, quem sabe, a trabalhar um dia destes. A vida tem destas coisas.
Espero sinceramente que gostem.

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Começou um novo ciclo político em Portugal. As eleições legislativas trouxeram consigo a derrota de uma maioria absoluta socialista, assim como o crescimento de certas forças políticas que nunca até hoje haviam conseguido ganhar grande protagonismo na conjuntura parlamentar.
Constantemente acusados de se refugiarem num Mundo de egocentrismo e abstracção pessoal, os jovens tomam hoje as rédeas daquilo que virá a ser o futuro da nossa sociedade. É neles que reside a expectativa de lutar por uma transformação e revitalização de todos os aspectos sociais, políticos e económicos que afectam o dia-a-dia de cada cidadão. A indiferença não é, ainda para mais numa altura em que graves problemas deterioram a consistência da contemporaneidade mundial, uma possibilidade de caminho.
Tomadas de posição precisam-se, assim como se precisa de líderes, ou, se preferirem, orientadores. Fomos, então, à Assembleia da República conhecer as jovens mãos nas quais o país vai estar assente durante os próximos anos. Para tal, tivemos como prestáveis intérpretes Rita Rato, de 26 anos, licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, funcionária e deputada do PCP pelo Círculo Eleitoral de Lisboa. Michael Seufert, também de 26 anos, mestrando em Engenharia Electrotécnica e de Computadores, deputado do CDS-PP pelo Círculo do Porto, e ainda António Leitão Amaro, de 29 anos, doutorando em Direito, professor universitário e deputado do PSD por Lisboa. Todos os três mostraram ser o modelo perfeito do jovem português que trabalha hoje por um futuro melhor e que, associado à política, acredita e defende com unhas e dentes aquelas que pensa serem as medidas ideais a tomar a curto e a longo prazo.
Mas até que ponto o posicionamento político não se sobrepõe ao factor idade nas escolhas e nos rumos a tomar? Poderá a política ser o principal problema...político? Rita Rato disse-nos, por exemplo, “que a grande diferença não é entre gerações, mas entre classes sociais”, o que significa que “não é por serem jovens que [os deputados] não estão de acordo, mas sim porque têm uma outra visão.” Isso revela uma tendência claramente preocupante, pois continua a ser deixada para segundo plano a partilha de soluções entre partidos. Então e os constantes problemas que afectam os jovens na educação, no acesso à cultura, no arrendamento jovem, na inserção e no justo aproveitamento no mercado de trabalho?
Quando inquirido sobre a desigualdade no acesso à cultura, António Leitão Amaro referiu que é necessário “haver uma verdadeira pluralidade de vozes” e que os produtos culturais a que o povo tem acesso não podem ser simplesmente escolhidos por “um conjunto de burocratas”, opinião partilhada por Rita Rato. Esta defende também que até hoje “os governos não têm tido uma política cultural integrada”, que se preocupe com a “grande maioria” que, por motivos económicos, não consegue aceder ao mundo cultural.
Já nos aspectos laborais as tendências são outras. Michael Seufert defendeu numa das suas intervenções parlamentares que os jovens portugueses “só querem trabalhar”. Apoia também que “deve haver alguma flexibilização do mercado laboral que permita às empresas organizarem-se de uma forma mais eficaz”, concepção suportada também por António Leitão Amaro, que acusa o Estado de querer “obsessivamente controlar e com isso burocratizar e parar tudo”. Já Rita Rato opta antes por insistir no desrespeito pelos “direitos laborais consagrados”, afirmando que “o que põe em causa o desenvolvimento [económico] não são os direitos laborais, mas a falta desses mesmos direitos”. No fundo pede-se ao Estado que tome uma posição e, acima de tudo, que respeite os jovens trabalhadores e o facto de estes estarem no “início de vida, logo em situação mais vulnerável”, como refere a deputada do PCP. Pede-se tudo isso, mas de formas muito diferentes. De um lado puxa-se ao de leve a corda para a iniciativa privada e para a liberalização do sector económico (CDS e PSD), enquanto do outro se tenta assegurar que o Governo proteja sem quaisquer limitações a classe operária (PCP). O mesmo se passa com as temáticas do ambiente e das obras públicas: as bases propostas parecem algo semelhantes nos três partidos, mas revela-se uma enorme discrepância quando se trata de conceber o envolvimento nessas matérias dos sectores privado e público.
Tira-se, por fim, a ilação de que a renovação e a inovação que os mais jovens podem trazer à realidade política em Portugal é, sem qualquer dúvida, condicionada por uma vasta colecção de complexidades ideológicas que se têm cristalizado ao longo de tempo. A discordância entre ideologias tem de ser vista como algo categórico, isso é certo. Mas quando essa discordância não nos traz nada mais do que debilidade de escolhas e critérios, é necessário que a repensemos para bem da humanidade e do tal amanhã que rebola relutantemente pelas nossas mãos.

7 comentários:

comboiodecordas disse...

"A universidade é mesmo um bicho de sete cabeças, um daqueles bichos que nos dá vontade de sorrir e sonhar com um futuro cheio de possibilidades e caminhos. Sonhar nunca fez mal, espero eu."

Um cliché dos piores, eu odeio clichés, mas é verdadeiro: O sonho comanda a vida.
O ir atrás de um sonho, a motivação e a força de vontade só por si já ajudam muito à sua concretização. E colher os frutos desse esforço, o sentir a auto-realização, é a melhor parte. E nao há nada melhor que ver o nosso nome num jornal, num daqueles jornais "a sério", que debotam tinta, que cheiram a papel e que mal nos cabem nas mãos. O orgulho é mais que muito.
Já tinha lido e gostei, parabéns! :)

Anónimo disse...

Eu também li e também gostei.
É bom ter colegas dotados de talento :D É bom saber que pela porta daquela sala vão sair jornalistas [com qualidade]. Parabéns, Tiago.

Daniela Polónia

Tiago Martins disse...

E é, também, bom saber que há quem me continue a ler.

Acreditem que bastam estas vossas simpáticas palavras para me orgulhar ainda mais daquilo que faço...dê por onde dê.

Muito obrigado e já sabem: Este espaço é também vosso.

Clara disse...

Sem dúvida, mais do que razões para se ficar todo "babado" :)

"Eu também li e também gostei", li primeiro aqui no blogue, embora também tenha a versão escrita, essa, a tal que dá (com certeza) muito mais gozo pois o nome "Tiago Martins" aparece em letras de imprensa!

Não sei se podia ser feito ou não, mas gostava de ter lido mais sobre a tua opinião, mas talvez a intenção fosse mesmo não o fazer ;)

Só um reparo de uma militante socialista: "As eleições legislativas trouxeram consigo a derrota de uma maioria absoluta socialista", certo, ok, mas trouxeram também a vitória a esse mesmo partido :) ... há sempre três lados da questão, o teu, o meu e o do outro não é? (ehehe)

Adorei o teu blogue, tens uma nova leitora atenta (Laura, que assina como Clara, mas não ligues, são dramas de identidade!)

Tiago Martins disse...

Laur...digo, Clara, muito obrigado pelo teu comentário. Fico contente por poder contar com mais uma alma caridosa e atenta a estas minhas palavras.

Gostei especialmente da crítica porque é construtiva e preciso que me desafiem e que me apontem erros. Isso é a escrita, isso é o jornalismo.

Muito obrigado e continua a passar por cá. Prometo novas leituras já nos próximos dias.

Clara disse...

Não te preocupes, já te tenho no feed rss, qualquer coisa que escrevas eu recebo! Não comentei, mas adorei a tua reportagem do dia da greve geral

Clara disse...

continuando... levaste com muitas portas na cara, é certo, mas aguentaste-te à maneira :)
Achei o fim do artigo fenomenal, o fim está mesmo muito bom, esse não foi para o jornal?

Tens uns pontos de vista engraçados, embora o "Conversa de Merda" me tenha dado alguns calafrios gostei imenso da ideia.

Fico então à espera e sente-te livre para me chamares pelo verdadeiro nome ;)