"Demasiada lucidez é culpada num mundo de cegos, que, com a cegueira, se contemplam sem desastre de maior"

9 de Abril de 2012

Benfica e Sporting querem trazer a "Europa" para Lisboa


Dum lado a Liga dos Campeões. Do outro a Liga Europa. Um Benfica que quer reavivar a chama dos gloriosos anos 60. Um Sporting que, a fazer lembrar a famosa "Taça das Taças", luta pelo seu lugar na história do futebol europeu. Juntos representam Lisboa. Juntos representam Portugal e o futebol português.


Abril traz-nos os quartos e as meias-finais das competições europeias. O Benfica, na Liga dos Campeões, tem pela frente mais uma equipa inglesa: o Chelsea. Desvalorizado até pelo avançado Drogba, o conjunto encarnado precisa de continuar a provar que merece estar entre as oito melhores equipas da Europa. Com um percurso memorável até ao momento, o Benfica, sem sofrer uma única derrota, “rouba” o primeiro lugar do Grupo C ao Manchester United – claro favorito que até acaba eliminado. Consegue, nos oitavos-de-final, levar de vencido o Zenit, primeiro classificado da Liga Russa. E, como se não bastasse, tem em Gaitán o melhor assistente da Champions. Mas tudo se resume ao dia 4 de Abril, data em que o clube encarnado ou chega às meias-finais, 24 anos depois, ou diz adeus ao sonho. Se passar, terá de enfrentar o AC Milan ou o Barcelona.
Já o Sporting pode chegar às meias e lá lutar por um lugar na final contra os alemães do Schalke 04 ou contra os espanhóis do Atlético de Bilbau. Mas primeiro terá de sobreviver às baixas temperaturas do Este ucraniano quando se deslocar a Carcóvia para enfrentar o Metalist. Vai ser uma eliminatória difícil para o clube lisboeta, mas a vitória sobre o Manchester City – equipa mais valiosa em Inglaterra, com um activo que ultrapassa os 400 milhões de euros – pinta de verde a esperança dos leões.
É a 9 e 19 de Maio que se resolvem a Liga Europa e a Liga dos Campeões, respectivamente. Portugal vai lá estar, na raça, e com o desejo de trazer para casa os dois maiores troféus europeus.

16 de Março de 2012

Confrontos após manifestação da Greve Geral

Os anónimos culpados

A responsabilidade dos jornalistas para com o público está acima de qualquer outra responsabilidade, nomeadamente da que assumem perante as administrações e os poderes públicos.

Declaração dos Deveres e Direitos dos Jornalistas,
aprovada a 24 e 25 de Novembro de 1971

Serve este trabalho para tentar colmatar aquelas que foram as sucessivas falhas da nossa comunicação social na cobertura e posterior análise dos confrontos entre polícia e manifestantes no período pós-manifestação da greve geral de dia 24 de Novembro de 2011.
Contextualizando, esta foi a primeira greve geral, desde o 25 de Abril, em que se viu uma manifestação a ser convocada para o mesmo dia em que o país pararia. O protesto foi agendado para a capital e concentrou-se em frente à Assembleia da República, tendo durado cerca de duas horas. Vale ainda a pena salientar, por fim, que esta é a sétima greve geral no nosso país desde a Revolução dos Cravos. Mas é também a segunda em apenas dois anos.
Como proceder então à análise deste caso? Antes de mais, faz sentido explicar o meu interesse em “dissertar” sobre tal tema: Fui um dos (poucos) jornalistas presentes durante todo o decorrer dos acontecimentos e sei, no final, o que vi e o que não vi. Posso assim explanar todo o caso segundo uma perspectiva de vivência directa e inequívoca, recorrendo apenas a fontes externas para fortalecer e consolidar os meus pontos de vista, que acabam por ir de encontro àqueles apresentados pela maioria dos órgãos de comunicação social. Mas já lá vamos. Antes de mais, defino os parâmetros e as perspectivas através das quais procederei à exposição deste preciso caso de falta de ética no nosso jornalismo. Interessa, para isso, referir que concentrarei a minha atenção na “informação actualizada”, na “informação do momento”. Quer isto dizer que terei sob a minha atenção, só e unicamente, o jornalismo online. Quer também dizer que escolhi três notícias específicas para serem o cerne do meu trabalho, a razão das razões para ter escolhido tal tema. Estas três notícias serão então o exemplo perfeito – segundo a minha perspectiva – do jornalismo desleal, que não vamos querer praticar no futuro, do jornalismo que faz aos outros o que não gostávamos que nos fizessem a nós. São elas: “Greve: Cordão policial, encontrões e detenções em 'manif'”, pelo Correio da Manhã (http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/economia/greve-cordao-policial-encontroes-e-detencoes-em-manif); “Greve geral: Sindicatos denunciam infiltrados”, também pelo Correio da Manhã (http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/greve-geral-sindicatos-denunciam-infiltrados); “Sete detidos e um polícia hospitalizado após a manifestação à porta do Parlamento”, pelo Público (http://economia.publico.pt/Noticia/quatro-detidos-e-um-policia-hispitalizado-apos-a-manifestacao-a-porta-do-parlamento-1522434).
O que é que está, na minha opinião, por detrás deste “hediondo” caso? Infelizmente, acho que não é sequer seguro ou aceitável acusarmos estes profissionais de serem maus jornalistas – ainda que o sejam. Na base deste tipo de artigos está um problema muito maior do que a incompetência de um ou outro jornalista de “pé-descalço”: a constante pressão em publicar notícias e actualizações minuto a minuto, numa tentativa de ultrapassar os órgãos de comunicação social adversários/concorrentes. Que o Jornalismo se pauta, desde a sua grande proliferação, em meados do séc. XIX, por ser uma actividade de constante rivalidade em busca da melhor e mais rápida notícia, isso não podemos desmentir. Aliás, tem sido essa perspectiva que tem levado à aposta económica e editorial na área, factor que contribuiu em muito para o crescimento – e surgimento – da profissão de jornalista. Mas daí a acreditarmos que é a constante disputa entre órgãos de comunicação social que contribui para o verdadeiro desenvolvimento do jornalismo ético, leal e factual ainda vai um longo – e tortuoso – caminho. E este trabalho procura ir ao encontro dessa abordagem, relembrando que o jornalista tem o dever de cumprir com o seu, lá está, dever para com a sociedade, informando-a, alertando-a e tomando uma posição de sinceridade e entrega para com aqueles a quem escreve. Tento assim provar que, cada vez mais, o jornalismo online – tomando estes três casos como exemplo – tem contribuído para o declínio da seriedade e integridade jornalística «na medida em que a velocidade implica um condicionamento sobre o fabrico da informação, que pode traduzir-se (...) na divulgação prematura de uma notícia ou numa sua elaboração precipitada - antes de fazer a investigação mínima, proceder às necessárias confirmações, etc. - apenas e só para que se consiga ultrapassar a concorrência»[1].
E é este negócio, esta avareza e esta constante sede de domínio e de póstumo reconhecimento que acaba por envenenar as informações que ao público são passadas. Exemplo perfeito disto mesmo são os constantes “telexes” da Agência Lusa que somos “obrigados” a ler nos sítios online dos jornais portugueses, porque não há tempo, interesse e/ou dedicação para dar ao leitor, ao público, à sociedade mais do que isso: uma notícia séria, verdadeira e confirmada pelo maior número de fontes fiáveis possíveis. O jornalismo online tem assim, e como mostrado, um ainda extenso caminho para percorrer, tendo como grande meta a seriedade e o cumprimento dos valores éticos dignos de qualquer jornalista. «Os direitos dos jornalistas têm a natureza de poderes-deveres, isto é, de poderes que devem ser exercidos; são, na terminologia técnico-jurídica, "funções", direitos irrenunciáveis, e que, justamente em virtude da sua natureza funcional, são atribuídos acompanhados da imposição (jurídica) de os exercer»[2].
Mas voltemos ao caso aqui em análise. Começo por tentar separar o trigo do joio, clarificando o que realmente se passou no dia 24 de Novembro. Como é sabido, uma greve geral havia sido convocada pelas duas centrais sindicais, a União Geral dos Trabalhadores (UGT) e a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN). Para além disso, e pela primeira vez na jovem democracia portuguesa, uma das centrais sindicais – a CGTP – decidiu também organizar uma manifestação de rua, com o intuito de demonstrar a perseverança da luta contra o endurecimento das políticas de austeridade deste novo governo PSD-CDS. A UGT, neste específico caso, alheou-se de tal medida e não esteve sequer presente nos protestos.
Acontece que, como em qualquer outra greve geral, os confrontos entre polícia e grevistas começaram cedo. De madrugada houve piquetes a impedirem a entrada de funcionários nos seus lugares de trabalho e, em resposta, houve também agressões aos constituintes desses mesmos piquetes. Em certos casos, a polícia chegou mesmo a exagerar na intervenção e fez da violência uma constante, impossibilitando até os piquetes de greve de cumprirem com a sua tarefa de diálogo, de forma a persuadir por meios pacíficos os trabalhadores a aderirem à greve: “Incidentes entre a polícia e o piquete de greve na estação da Carris na Musgueira”, pela RTP (http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=502961&tm=8&layout=122&visual=61). A estes incidentes juntaram-se outros, bem mais raros e inimagináveis, que incluíram o arremesso de latas de tinta e de cocktails molotov durante esta manhã de quinta-feira, dia 24: “Repartições de Finanças atacadas com 'cocktails molotov'”, pelo Diário de Notícias (http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2145774). Como dá assim para perceber, estava assim a instalar-se um clima de suspeição e de desconfiança entre os dois lados – polícia e plataformas sindicais. Ainda que Carvalho da Silva e João Proença tenham vindo a censurar todos esses acontecimentos durante os constantes depoimentos que iam facultando aos meios de comunicação social, a CGTP e os grevistas acabaram ainda assim por se ver a braços com uma acusação muito séria. E é aqui que voltamos às três notícias anteriormente referidas e que constituem o meu caso (as duas do Correio da Manhã e a outra do Público).
Tendo estado presente na manifestação, desde o primeiro segundo, posso adiantar que a mesma não foi organizada da melhor forma. Foi anunciado por todo o lado que o protesto seria em frente à Assembleia da República (AR), por volta das 15h00, mas a verdade é que os manifestantes ficaram de marchar pela baixa lisboeta, arrancando do Rossio, isso sim, às 15h00. Depois desfilariam junto ao rio, até começarem a subir, já no fim, pela Calçada da Estrela, em direcção à AR. Todos os jornalistas presentes no local estavam confusos e percebia-se que nas redacções era também dia de greve (problemas na comunicação, poucos meios, etc.). Quando os manifestantes por fim chegaram – às 16h00 – era visível que os órgãos de comunicação social não os tinham acompanhado na marcha. Os cerca de seis jornalistas que ali estavam perto de mim, eram, portanto, os únicos a cobrir o acontecimento. Quero deixar este facto bem claro para que se perceba posteriormente que o corrupio de informações pouco fidedignas e raramente confirmadas partiu de um ou outro meio de comunicação, tendo chegado, por arrasto, aos restantes, que, aproveitando a maré, remaram por aí acima num mar de complicações e “inverdades” que vieram pôr em causa os verdadeiros motivos dos confrontos agora aqui abordados.
Olhemos então para a primeira notícia - “Greve: Cordão policial, encontrões e detenções em 'manif'”, pelo Correio da Manhã (http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/economia/greve-cordao-policial-encontroes-e-detencoes-em-manif): repare-se, antes de mais, no facto de termos perante os nossos olhos uma notícia repleta de inúmeros “factos” e de actualizações, publicada na precisa altura da manifestação, mas que não está sequer assinada. Não tem autor. Nem remete para uma possível agência de notícias. Nada. Aqui começa o “jornalismo responsável”. Depois, temos de olhar para a intemporalidade dos factos. Repito que estive presente durante a manifestação e tudo o que é descrito na notícia aqui em questão é uma espampanante mentira. Aliás, e corrijo-me, é uma mentira cheia de verdades. Isto porque se confunde o leitor misturando factos e acontecimentos que não ocorreram nas mesmas alturas: «Algumas grades foram derrubadas, na tentativa dos participantes subirem a escadaria da Assembleia da República. (...) Junto ao palco está um cartaz que simula um placar de cortiça com 'post it' com o título ‘A greve hora a hora'. (...) Os manifestantes cantam agora 'Grândola Vila Morena', de Zeca Afonso». Olhe-se para a citação. Lá definimos três acontecimentos. Três acontecimentos esses que nunca se chegaram a relacionar. O primeiro ocorreu perto das 18h00. O segundo deu-se entre as 16h00 – altura da chegada dos manifestantes – e as 17h45 – altura em que os mesmos manifestantes abandonaram o local. E o terceiro foi perto das 17h45, no final do discurso de Carvalho da Silva. Lendo-se a notícia, deduz-se que os grevistas estão ainda no local, a arremessar garrafas, a ofenderem os agentes da autoridade e a derrubarem grades, tudo ao som de Zeca Afonso. E chegamos, por fim, à falta de respeito e à falta de ética neste caso. Segundo o Correio da Manhã, que podia muito bem nem estar no local – facto que não consigo corroborar ou desmentir -, os indivíduos envolvidos nos confrontos eram grevistas. Porquê? Porque não estava lá mais ninguém! E a notícia comprova toda essa “tese”. Mas agora aprofundamos esta análise, chegando à segunda notícia - “Greve geral: Sindicatos denunciam infiltrados”, também pelo Correio da Manhã (http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/greve-geral-sindicatos-denunciam-infiltrados).
Ao que parece, “até” nem foram os grevistas os envolvidos nas cenas de violência que tomaram lugar em frente à AR. Curioso não deixa de ser o facto de o Correio da Manhã apenas fornecer esta informação só quase 24 horas depois – no dia 25 de Novembro. Mas vamos aceitar o sucedido. Todos os esforços em prol da restituição da verdade devem ser respeitados e enaltecidos. No entanto, acaba por não ser bem esse o caso. Vejamos: «Assim que marcaram a greve geral de ontem, os dirigentes das duas centrais sindicais (CGTP e UGT) manifestaram à PSP a preocupação de que as manifestações a realizar no dia do protesto pudessem contar com infiltrações de movimentos anarquistas». Ora bem, quem marcou a manifestação – repito-me propositadamente – foi a CGTP. A UGT demarcou-se totalmente da iniciativa. Ou a notícia começa por ser, desde logo, mal construída, ou estamos já a mentir. Depois, relatam os três jornalistas do Correio da Manhã, «ao longo do corrente mês, dirigentes da CGTP e da UGT reuniram-se por várias ocasiões com responsáveis das Forças de Segurança» tudo para que a polícia controlasse, da forma que entendesse, os manifestantes que não fossem grevistas. Quer isto dizer que Carvalho da Silva, o responsável que veio condenar os actos de violência perpetrados pela PSP e GNR relativamente aos piquetes de greve - anunciando até no seu discurso em frente aos manifestantes a intervenção da polícia como «indigna», alegando que nenhum agente tem «a capacidade legal para violentar um grevista» - é o mesmo homem capaz de combinar à socapa uma «estratégia - com agentes à civil e com uma "visibilidade policial" pouco ostensiva»? Estamos a fazer aqui acusações gravíssimas. E quais as fontes citadas para comprovar tal cenário de conspiração? Nenhumas. Perdão, há uma fonte: «A preocupação foi ganhando expressão (...) admitiu ao CM fonte sindical». Nada faz sentido nesta notícia. Absolutamente nada. E é citada uma fonte que não consegue ser comprovada. Não há sequer uma justificação para o nome da mesma não ser referido. Porquê o anonimato, então? «O exemplo mais visível de infracção deontológica é o uso e o abuso do recurso às chamadas "fontes anónimas" (…). Exceptuando casos especiais, aliás previstos no Código, não é defensável a sua utilização. Muito menos quando o objectivo é (…) dar cobertura a simples boatos ou especulações»[3]Não terá sido este o caso?...
Mas não acabam aqui as “estórias” mal contadas. Há mais: «Os temores vieram a confirmar-se, com a tentativa de invasão do Parlamento protagonizada, ao final da tarde, por radicais infiltrados no Movimento “Indignados”». Radicais infiltrados num movimento? O que é que isso quer dizer? Volto a perguntar: onde estão as fontes? Não existem. Mas o mais grave é que os pormenores não batem certo. Ainda que a CGTP se tenha afastado dos restantes movimentos presentes na manifestação, o próprio Carvalho da Silva, quando subiu ao palco para o seu discurso, agradeceu a todos os que se tinham juntado aos grevistas. Estava lá e ouvi-o. Não havia portanto toda essa animosidade relatada pelo Correio da Manhã. Para além disso, é descabido e errado, primeiro, tratar este tipo de movimentos por «movimentos anarquistas», e segundo, colocar todos os participantes no mesmo “saco”, alegando que todos faziam parte dos tais “Indignados”. Mas isso até nem é um erro crasso por parte do Correio da Manhã visto que todos os órgãos de comunicação social têm utilizado esse nome para se referirem a todo este tipo de movimentos, independentemente de quem realmente participa – ou não – deles. Quer isto dizer que o “15 de Outubro (ex-Geração à Rasca)”, os “Precários Inflexíveis”, as “Acampada Lisboa” e “Acampada Coimbra”, o “Ocupar Lisboa”, os “Anonymous”, e o “ZeitGeist” – movimentos que estiveram presentes na greve geral e que o anunciaram nos seus respectivos sites - são todos “Indignados”. Pronto. Perdoem-me o tom irónico, mas poupa-se papel e põem-se os «militante anarcas» - alcunha dada pelo Correio da Manhã - todos no mesmo patamar e na mesma organização que é para não dar tanto trabalho a escrever. Para além de falta de ética, começamos a atingir o patamar do ridículo. Mas a – mais provável – realidade dos factos não surge nem nesta notícia, nem na seguinte: “Sete detidos e um polícia hospitalizado após a manifestação à porta do Parlamento”, pelo Público (http://economia.publico.pt/Noticia/quatro-detidos-e-um-policia-hispitalizado-apos-a-manifestacao-a-porta-do-parlamento-1522434).
Trouxe para a discussão este artigo à responsabilidade do Público porque o mesmo é extremamente incriminatório e incendiário. Veja-se que é publicado no dia da manifestação e apenas uma hora depois dos confrontos (19h08), mas vem já repleto de certezas e de verdades inquestionáveis. Começa logo com uma frase descabida na entrada: «Mesmo em dia de greve geral a unidade é uma coisa muito relativa». E continua, desta feita, com uma mentira: «Depois de não ter conseguido chegar a um acordo com os dirigentes sindicais para organizar um desfile conjunto em Lisboa até ao Parlamento». É caricato ler esta informação, quando, no dia anterior ao da manifestação, várias plataformas online ligadas à própria CGTP haviam assegurado a participação destes movimentos independentes no protesto. Se tal era uma estratégia, não sei. Mas a verdade é que no seguimento da manifestação e de todos estes confrontos («Alguns usaram mesmo os paus das bandeiras vermelhas para criarem uma barreira que impediu os “indignados” de avançar e de se misturarem com o resto da multidão») não houve um único movimento que viesse protestar dessas supostas acções levadas a cabo pela CGTP ou pelos seus membros sindicalizados. Mais uma vez: há muita coisa nesta “estória” que não bate certo. O jornalista tem o dever de acrescentar ao seu relato informações, dados e depoimentos que de facto confirmem o que este está a dizer. E a verdade é que olhamos para esta notícia e não vemos nada disso. A única fonte, que passa até despercebida, surge no terceiro parágrafo, na altura em que se comentam as detenções realizadas pela polícia: «Acabaram por ser detidas sete pessoas, segundo informação confirmada pela PSP». A pergunta que fica no ar é óbvia: mas afinal as três jornalistas estão a complementar o seu relato da história unicamente com o depoimento da polícia? É grave: «Um jornalista, cobrindo um movimento de massa ou uma situação de agitação social, continua a seguir a prática jornalística e procura alguém autorizado. O resultado frequente é que chamam outras instituições para informação - quadros da polícia, sociólogos e, sempre, os funcionários do Estado - muitos deles porta-vozes das instituições que estão sob desafio dos movimentos de massa»[4]E, desta forma, surgem perante nós os últimos detalhes que só são conhecidos dias mais tarde (29 de Novembro).
O risco de recorrer unicamente às declarações da polícia ou do Ministério da Administração Interna remete para o facto de estes depoimentos serem do “tipo cassete”. Mesmo que algo tenha corrido mal, o jornalista nunca o vai saber através de um comissário da PSP, por exemplo. Faz sentido que assim seja, infelizmente. E, neste preciso caso, vem-se a confirmar que algo falhou realmente no que toca à intervenção da polícia: «“Houve polícias à civil a incitar à violência” na manifestação do passado dia 24 de Novembro, dia da greve geral. A acusação é da Plataforma 15 de Outubro, que integra o movimento dos ‘indignados’» (“Plataforma acusa polícia de incitar à violência na manifestação da greve geral”, pela Rádio Renascença [http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?did=40925&fid=25]). Este facto é trazido à tona pelos tais «anarcas» que queriam apenas e somente invadir o Parlamento. O ministro Miguel Macedo foi implicado no caso pelos queixosos e a verdade é que também não se conseguiu distanciar de um presumível envolvimento. A PSP, essa, é que acabou mesmo por cair na boca do lobo, vendo-se obrigada a abrir «um inquérito interno de averiguações sobre o vídeo das agressões a um jovem alemão após a manifestação» - um dos casos que demonstrava a brutalidade policial e o facto de existirem mesmo agentes à paisana entre os manifestantes (“Há provas de polícias à civil a incitarem à violência no dia da greve geral”, pelo Jornal de Notícias [http://www.jn.pt/PaginaInicial/Seguranca/Interior.aspx?content_id=2156488&page=2]; “PSP investiga violência com agentes à paisana no dia da greve”, pela SIC Notícias [http://sicnoticias.sapo.pt/pais/article1037746.ece]).
No final, cinco dos sete manifestantes detidos estão a ser julgados (“Greve geral: detidos com julgamentos adiados”, pela TVI24 [http://www.tvi24.iol.pt/aa---videos---sociedade/greve-greve-geral-detidos-ar-julgamento-tvi24/1302697-5795.html]). Mas o inquérito interno de averiguações da PSP ficou esquecido. Os culpados ficam, como sempre, no “anonimato”.


[1] Fernando Correia – Os Jornalistas e as Notícias; Lisboa; Editorial Caminho, SA; 1997; pp. 206 e 207
[2] Sara Pina – A Deontologia dos Jornalistas Portugueses – Estudo comparado dos códigos deontológicos de 1976 e de 1993; Coimbra; Livraria Minerva Editora; 2000; p. 136
[3] Fernando Correia – Os Jornalistas e as Notícias; Lisboa; Editorial Caminho, SA; 1997; p. 219
[4] Rogério Santos – A Negociação entre Jornalistas e Fontes; Coimbra; Livraria Minerva Editora; 1997; p. 28

22 de Janeiro de 2012

Morte de Cesária Évora

A "sodade" volta a Cabo Verde

«Cabo Verde fica mais pobre, da mesma forma que ficou mais rico quando ela nasceu, porque nasceu uma estrela. Uma estrela que brilhará sempre através da sua música». Foi assim que o conterrâneo de Cesária Évora, o músico Tito Paris, encarou a morte da cantora. Cesária, com 70 anos, não resistiu a uma crise de insuficiência cardio-respiratória aguda. Morreu no passado dia 17 de Dezembro, no Hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente.
Nascida a 27 de Agosto de 1941, no Mindelo, Cabo Verde, a “Diva dos pés descalços” – como ficou internacionalmente conhecida – conseguiu colocar a cultura e a música do seu país na boca do mundo. Ficou órfã muito cedo, logo aos 15 anos, altura em que, para sustentar a família, seguiu as pisadas do tio, “B Leza”, e começou a cantar em bares. Interpretou, ao longo dos seus 45 anos de carreira, inúmeras coladeras, canções inebriantes escritas para dançar, e ficou reconhecida como a “Rainha da Morna”, o chamado blues cabo-verdiano. Lançou 24 álbuns originais, um DVD – “Ao Vivo em Paris” - e participou em 4 colaborações com artistas de peso. Cantou, encantou e fez a sua voz triste, mas inspiradora, percorrer o mundo.
Mas também no seu caminho se deparou com inúmeros obstáculos e dificuldades. Para além de crescer na pobreza, de se ter visto obrigada a trabalhar em vez de estudar e de nunca ter conseguido constituir família, em 1975, já com 30 anos, Cesária, viu-se obrigada a deixar de cantar para poder sustentar os seus dois filhos. Durante este negro e difícil período da sua vida, que se viria a prolongar por mais de dez anos, a cantora acabou por recorrer incessantemente ao álcool, como se de um refúgio se tratasse. Enquanto Cabo Verde celebrava a sua independência a “Rainha” abandonava os palcos, tornava-se alcoólica e começava a trabalhar noutra área. Felizmente, acabou por não ter sucesso.
Afugentou os seus fantasmas e, em 1985, deixa a terra natal para ir para Portugal gravar um disco da OMCV (Organização das Mulheres de Cabo Verde). Começavam a sair entretanto os seus primeiros singles. Meses depois grava o segundo disco, mas é em 1987, que dá o “salto”...literalmente. Enquanto cantava num bar atraiu a atenção de José da Silva, tendo mais tarde combinado com o mesmo partir para França com o intuito de dar a conhecer a sua música ao mundo. Conseguiu e, desde então, pôde sempre contar com José – ou “Djô” – como seu produtor musical e amigo.
Tornou-se uma lenda e a sua morte foi noticiada um pouco por todo o globo. Deixou a sua marca e marcou também o lugar de Cabo Verde na música. E até no seu final de carreira conseguiu ser brilhante. Em 2004 é galardoada com um “Grammy Award for Best Contemporary World Music Album”. Três anos mais tarde é condecorada em França com a Ordem de Cavaleiro da Legião de Honra, enquanto em 2009 recebe a Medalha dessa mesma Legião. Humilde e (ainda) sonhadora morre Embaixadora da boa vontade da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Morre feliz. Morre e deixa sodade.

23 de Dezembro de 2011

Perder quatro feriados vem mesmo tirar descanso a Portugal


É preciso cortar. Mas é também preciso produzir. Propõe-se então agora, neste novo Orçamento de Estado, a redução do número de feriados nacionais. Mas quanto pode o país lucrar com esta medida? O suficiente para eliminar do calendário uma data histórica?

Fotografia de Álvaro Isidoro in Diário de Notícias

É uma das medidas que mais deu que falar nas últimas semanas. Os sindicatos não concordam, os especialistas mostram-se receosos e só o Ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, juntamente com o Governo, está realmente ciente daquilo que a redução dos feriados nacionais pode trazer economicamente ao país.
A proposta vem no seguimento da votação e discussão do Orçamento de Estado de 2012 – entretanto já aprovado – e está a gerar dúvidas no que toca à sua efectiva execução. Numa tentativa de simplificar a questão para os portugueses, Álvaro Santos Pereira convocou uma reunião com os parceiros sociais, no passado 28 de Novembro, na qual propôs a eliminação definitiva dos feriados do 15 de Agosto, do Dia de Corpo de Deus (feriado móvel), do 5 de Outubro e do 1 de Dezembro. Dessa forma, eliminar-se-iam dois feriados civis e dois religiosos, não se gerando assim atritos, por exemplo, com a Igreja. Acontece que a medida passou em votação na Assembleia da República – inserida no Orçamento de Estado -, mas continua ainda “entalada na garganta” de alguns, como sejam, por exemplo, os sindicatos, que não estão dispostos a tal sacrifício. Já a Igreja anuiu, mas a algum custo. No entanto, o que é que se consegue com a eliminação destes quatro feriados? É essa a questão.
Ricardo Barradas, jovem Economista de 25 anos, professor de Análise Económica na Escola Superior de Comunicação Social, é um dos cépticos. Interessado no assunto desde os seus tempos de licenciatura, aproveita agora para dizer que «não há mais valia, nesta altura, em cortar 4 feriados», defendendo que a medida não passa de uma «estratégia demagógica». O também Doutorando em Economia compreende que «existe actualmente um sufoco em Portugal que se prende com a necessidade de regularizarmos o défice», mas não acredita que a redução destes 4 feriados possa, por si só, resolver alguma coisa: «é importante termos em conta que estamos a falar de direitos que se perdem, não existindo para tal nenhuma justificação do ponto de vista das contas públicas». Mas e ao nível da competitividade? É importante para o Estado conseguir aumentar os níveis de produção, de forma a aumentar as possibilidades de negócio, de expansão e de vendas. Isso parece ser um dado adquirido. Ricardo concorda, mas atenta para o facto da questão não passar apenas por aí: «não vejo como é que é possível tornar um país competitivo por trabalharmos todos mais 4 dias». Então é viável manter os feriados? «Os feriados geram receitas. O português vai às lojas e consome, vai ao cinema e dá dinheiro para ver um filme, vai a um restaurante e paga uma refeição. Pagando-a, paga também o chamado IVA, o que permite ao Estado receber sempre uma larga fatia». Chega-nos então uma nova perspectiva de análise para a qual ainda ninguém olhou: o consumo.
Segundo o Banco de Portugal, e fazendo contas arredondadas, por cada dia útil Portugal consegue, através do trabalho, produzir cerca de 650 milhões de euros. No entanto, não são esses 650 milhões que o Estado perde num dia de paragem total, como nos feriados. Diz o especial Luís Bento, de 60 anos, e Professor de Recursos Humanos da Universidade Autónoma de Lisboa, que Portugal perde sim, cerca de 37 milhões de euros. Porquê? Porque o consumo também interessa para o Produto Interno Bruto (PIB). E muito: «O Estado ganha bastante com os feriados, concedendo assim oportunidades de lazer às pessoas e adoptando uma posição de tolerância e de cumplicidade, o que também é importante». Portanto, não são só as questões económicas que interessam. Há mais para lá disso. E aqui Ricardo Barradas destaca os interesses sociais: «Isto só irá gerar mais descontentamento social. Mas não acaba aqui! Outro bom exemplo destas práticas prende-se com a ridícula questão de trabalharmos mais meia hora por dia, por exemplo». Luís Bento parece concordar: «Estamos a arranjar aqui uma maneira de não enfrentar os verdadeiros problemas económicos do país. Ou o Governo acredita que uma meia hora a mais não será uma meia hora no Facebook? Suprimir 4 feriados é um disparate e uma patetice».
Terá Álvaro Santos Pereira comprado – e usando a expressão do especialista em recursos humanos - «uma guerra desnecessária»? Numa altura em que todas as medidas de contenção parecem ser fundamentais, não faria mais sentido concentrar esforços na questão das “pontes”, por exemplo? Luís Bento crê que é por aí que temos de começar. «Uma “ponte” é mais danosa do que um feriado, porque é constantemente anunciada de véspera, acarretando incerteza, desconhecimento, falta de planificação e de flexibilidade. Dessa forma o custo de acesso ao bem que pretendíamos chega mesmo a triplicar». Portugal tem aqui espaço de manobra. Dessa forma, a possibilidade de não termos de eliminar datas com uma grande carga histórica e simbólica talvez fosse viável se a discussão tivesse sido levada de outra maneira. Mas até aqui, Luís Bento culpa o Governo: «São os modelos de organização de tempos de trabalho que estão ultrapassados e errados. É necessário distribuir de uma forma mais eficaz o calendário de trabalho e, aí, pergunto eu: porque é que o Estado não se senta à mesa com os seus parceiros sociais e tenta definir um número máximo de quatro pontes em Portugal, por exemplo, que teriam de ser anunciadas até dia 10 de Janeiro de cada ano? Acabava-se assim com as tolerâncias de ponto que tanto prejudicam a nossa economia e conseguíamos um calendário balanceado e previsível». São perguntas que ficam por responder. Por agora, sabemos apenas que o próximo ano não contará com quatro dos catorze feriados e que os portugueses vão perder tempo de descanso e de lazer. Os resultados económicos serão analisados no final do próximo ano, mas, até lá, fica a certeza de que, socialmente, acabar com um feriado traz mais do que 37 milhões de euros: traz uma guerra à qual o Governo já não pode virar as costas.

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O anterior artigo vem compilado numa secção de destaque que se dedica a explanar a fundo toda esta problemática da redução dos feriados nacionais. Essa mesma secção foi realizada no âmbito de uma cadeira de Jornalismo de Imprensa, tendo sido ainda necessário proceder à paginação da mesma. Deixo então, de seguida, a possibilidade de fazerem o download de todo este trabalho jornalístico.

Produção e Design: Tiago Martins e Sara Ribeiro da Silva

1 de Dezembro de 2011

Entrevista ao Chef Ljubomir Stanisic

«Comendo, bebendo, sentido e cheirando é como descubro as coisas»

É a cozinha pela cozinha. Sem artifícios. Sem estratégias. É “100 Maneiras”. Ljubomir é “O Guerreiro” que já tanto perdeu, mas que luta agora por vencer e convencer. Já conheceu o sabor amargo de uma falência, mas hoje aventura-se por entre as apaladadas experiências da cozinha de luxo. Viveu no meio da guerra, durante a adolescência, mas a única batalha que trava agora é pela credibilidade da sua (ainda) pequena cadeia de restaurantes.


Ficou o encontro marcado para as 18h00 no “Bistro 100 Maneiras”, junto ao Largo da Trindade. Às 17h55, poucos minutos antes do combinado, o chef Jugoslavo já lá estava, dentro do seu restaurante, muito embrenhado num processo que, à vista desarmada, se designaria por “regateio comercial”. Discutia assim abertamente – e audivelmente – com um dos seus fornecedores.
Em tons de branco e preto se pintam as primeiras impressões, logo à entrada. A hospitalidade, essa, chegou na forma de um gin tonic. A receita é um original de Ljubomir que, apesar de viver para a cozinha, também arrisca a sua sorte no mundo dos cocktails. O copo chegou e vinha com o tamanho necessário para armazenar em si uns sete cubos de gelo, umas 10 folhas de hortelã e algo como meia garrafa de gin. Mas nem tudo o que parece é. E a rudeza do gin deixou-se suplantar por uma deliciosa combinação de morangos, folhas de rosa, rodelas de limão e raspas de gengibre.
À mesa sentou-se apressadamente Ljubomir Stanisic, de 33 anos e natural de Sarajevo. É pai de um garoto de cinco anos, mas também de uma cadeia de três restaurantes à qual resolveu dar o nome de “100 Maneiras”. Foi um dos três júris do programa culinário MasterChef, na RTP. É o autor do recentemente lançado livro “Papa Quilómetros”. É louco por vespas. Por All Stars. Por mulheres. Por Portugal.


Antes de mais, trato-o por "tu" ou por "você"?
Por tu. Caso contrário expulso-te já daqui. E vais cá ficar a jantar a seguir à entrevista. Não deixo que ninguém me pergunte o que quer que seja, sem provar a minha comida. Tens de me conhecer pela minha qualidade, não pela minha fama. Então vá, trata de ligar à namorada para vir já cá ter. Jantam juntos. Rápido, rapaz!

É? Dê-me um segundo, então! Vou mandar mensagem. Mas enquanto trato disto: Ljubomir, és ex-Jugolasvo ou Bósnio?
Não. Sou Jugoslavo! Não sou ex-Jugoslavo, nem "ex" nada. Sou Jugoslavo. Declaro-me como tal. Primeiro porque a minha família gostou - e gosta - muito de sexo, tal como eu, e misturaram-se todos: Muçulmanos, Croatas e Sérvios. É óbvio que tudo isso me influenciou. Tenho primos e tios croatas, sérvios e muçulmanos. Mas acabei por sair do país quando este se começou a partir.

Na altura da Guerra? Em 1992?
Mais cedo. Começou-se a partir em '89 graças àquele pequeno problema na Eslovénia. A partir daí, os focos de tensão abrangeram toda a Jugoslávia. A mim, afectou-me em 1991, em Sarajevo. No entanto a verdadeira separação dá-se em 1999, quando a Jugoslávia perde o nome e passa a ser "Sérvia". Mas eu saí em '97 como Jugoslavo e vou morrer como tal.

A guerra acabou na Bósnia em 1995. Consideras que as coisas por lá estão mais sossegadas? É esse o feedback que recebes dos familiares que lá vivem?
Sim, tenho lá família e vou lá todos os anos. Aliás, vou de dois em dois anos, praticamente. Não sou grande fã da ex-Jugoslávia. Desde a separação que não tenho grande carinho por aquilo.

O que é que falta agora?
Falta aquela união que existia. E, para além disso, saí de lá com 17 anos. Era um puto! Tenho agora 33, portanto - e como vês -, já criei o meu novo e próprio mundo em 16 anos. Quer isto dizer que já vivi muito mais fora dali do que por estas zonas.

Foram tempos difíceis até aos 17 anos?
Foram, foram! Então não?! Foram difíceis, mas foram muito bons! Muitas pessoas ficam com traumas de guerra, mas eu não. Eu fiquei guerreiro. Tão simples como isso. Já caí, já me fui abaixo, já fui à falência com um restaurante em Cascais, já perdi meio milhão de euros, mas a seguir levantei-me, construí coisas novas e trouxe-me de novo para a ribalta. Estou aqui! Sou e fui um guerreiro. Enquanto tu andavas de bicicleta eu desmontava AK-47s.

Porque é que vieste para Portugal?
Foi graças a uma viagem. Andei pela Europa com vários freaks, feito "calimero", com 200 marcos no bolso, e entretanto vim cá dar. Tinha uma irmã a viver em Portugal, a Natasha, e quando fiquei liso, instalei-me por cá. Foi quando comecei a gostar muito disto. Das pessoas, da natureza, da língua...só não gostava era do cheiro do bacalhau!

Portanto, certo dia acordaste, resolveste fazer uma viagem pela Europa e quando o dinheiro acabou, largaste aqui a trouxa...
Não foi bem quando acordei. Lembro-me que estava sentado numa esplanada com pessoal da minha turma, que eram todos uma cambada de mafiosos e malucos, e, do nada, apercebo-me de que eles eram todos muito burros. Não tinham objectivos na vida! Estavam para ali sentados, nos seus fatos de treino e com os seus ténis Nike ou Adidas, a terem uma conversa repleta de estupidez. Resolvi então levantar-me e dizer-lhes: «Estou farto de vocês e vou-me embora daqui! Estou farto desta merda, estou farto desta vida!». Dia seguinte: peguei na mala, comprei um bilhete e vim-me embora.

Fazias alguma coisa lá? Estudavas ou trabalhavas?
Estudava Engenharia Química e Alimentar e trabalhava à noite na padaria para sustentar a família. Tudo ao mesmo tempo.

Com que idade foi isso?
Comecei com 15 anos, nessa padaria.

Chegaste a Portugal mais ou menos em que altura?
Ainda me lembro. A 31 de Agosto de 1997.

Logo na altura do calor.
Sim, cheguei na altura do calor e numa boa altura. Ainda Lisboa não era como é. Mudou muito. E mudou para melhor.

Achas?
Sem dúvida. Lisboa é um sítio fenomenal. Isso é que ninguém me tira da cabeça. E não o digo por viver aqui. Já viajei pelo mundo todo, já vivi na Ásia, já vivi na África, já vivi em todo o lado. Já saí de Lisboa, quis desistir disto e não consegui!

Mas porquê?
Sei lá, pá! É magnética! Tem tudo a ver comigo, entendes?

E só sentes isso em Lisboa?
O único sítio onde me sinto realmente bem recebido é em Lisboa. Senti o mesmo em Londres, senti o mesmo em Barcelona, mas não tanto como aqui. E é esse o meu "problema": adoro-a. Adoro Lisboa. Sou mais português do que 90% das pessoas deste país.

Chegas a Portugal em '97 e qual é o primeiro contacto que tens com a cozinha portuguesa?
Vítor Sobral! Espera lá...não, não. O primeiro sítio onde trabalhei foi o "Janelas Verdes", um restaurante de picanha, onde espetei um garfo num cozinheiro brasileiro.

Era aí que eu queria chegar. Isso é mesmo verdade ou disseste isso na entrevista com o Fernando Alvim só pela piada da coisa?
Não! Foi mesmo verdade. Sei que o gajo me estava a dizer que não era assim que se cozinhava a carne. Sempre a embirrar comigo, arma-se em maestro, saca duma faca e começa num monólogo a dizer que os bifes tinham de estar virados para aqui e para ali. Peguei num garfo, virei-me para ele e disse-lhe: «Olha aqui a picanha...». Ele baixa-se, põe a mão na bancada e toma! Uma garfada na mão! Foi um acontecimento normal para uma pessoa com traumas de guerra, para um guerreiro, pá!

Mas não arranjas problemas assim, a reagires dessa forma?
Sim, arranjo. Outro dia parti a boca aqui a um dos sub-chefes da cozinha. Dei-lhe uma cabeçada. Mas sabes que mais? Ainda cá está a trabalhar. Voltou. Assumiu que estava errado. Tinha combinado comigo estar cá às nove da manhã. Chegou-me às onze, todo ressacado e saído de uma directa no "Europa", querias o quê?

Sentes que em Portugal as coisas não se resolvem tanto assim?
Mas eu não sou assim. Não resolvo as coisas assim. Sou um gajo muito porreiro. A sério. Tenho é uma atitude um pouco agressiva durante o trabalho e também dentro da minha cozinha. A cozinha é uma tropa, percebes? E eu estou no lugar do comando. Aqueles que não me ouvem é rua com eles! Estou aqui a lutar pela vida deles. Quem manda sou eu e o cliente tem de comer bem.

Voltando ao Vítor Sobral...
É o meu pai!

O teu pai português?
Exacto. Eu chamo-lhe pai, ele chama-me filho. Também já nos zangámos. Já o mandei para o caralho, já nos chateámos a sério, mas fazemos sempre as pazes. Foi o senhor que me recebeu na cozinha e que foi mais aberto comigo. Não me educou, mas a maneira de viver, de estar e de ser dele fez-me aprender muito. Ajudou-me bastante. Nessa altura eu atravessava a plena "fase de sucção": era um puto que sugava tudo e tinha a mania - e tenho - de querer ser o melhor em tudo aquilo que faço. E ter estado com ele durante todo aquele tempo foi fenomenal. E um dia eu disse-lhe: «Nós vamos separar-nos e eu vou ser melhor do que tu». E cá estamos hoje.

E quem é o melhor?
Ele é sempre o pai...

Então não há disputas com ele.
Não, mas dou-lhe baile na cozinha!

Dizes-me tu que tens de ser o melhor. E se não fores? É uma grande chatice?
Não, nem por isso. Continuo é a lutar! É a minha maneira de ser. E não quero ser o melhor, nem o número um: tenho é uma necessidade de auto-satisfação e de luta pelos meus objectivos. Viver sem objectivos torna-se estúpido. E eu vivo assim. E é também assim que surge o grupo "100 Maneiras". Somos 3 restaurantes, vamos abrir uma padaria e é desta forma que tenho tanta gente a vir atrás de mim. Acreditam nas minhas ideias e querem fazer este caminho comigo. Há crise? Vamos lutar contra a crise então! O Governo é uma merda? É, pois! O desemprego em Portugal está nos picos e vai aumentar. O IVA vai aumentar também. Então eu tenho de cortar em algum lado. Onde? Na mão-de-obra. Mas alguém neste país pára para pensar que a restauração em Portugal emprega cerca de 1 milhão e 200 mil pessoas? Então porque não apostar nisto?!

Achas que, de certa forma, as tuas palavras e as tuas entrevistas também servem para acordar as pessoas lá fora?
Não servem para acordar ninguém. Servem para dizer a toda a gente que eu não desisto de lutar. Vivi a revolução contra Slobodan Milošević, em Belgrado. Participei em manifestações até mais não. Cheguei a passar uma semana a dormir ao relento porque tínhamos fechado a rua contra Milošević. E no final conseguimos! Por isso, há maneiras e maneiras. Como agora tenho direito a falar em público, coisa que na altura não existia em Sarajevo, pois teria sido automaticamente fuzilado, vou enfrentar as coisas! Tenho o direito à palavra. As pessoas dão-me espaço de antena e vou usá-lo.

O guerreiro vem agora lutar para Portugal?
Aquilo que teve real influência na minha vida foi o que passei na ex-Jugoslávia. Mas tirei partido de tudo, e ainda bem. Sou como sou, graças a isso. E tudo o que fiz até agora é muito melhor do que ficar em casa a bater com a cabeça na parede e a pensar: «Sou um coitadinho, estive na guerra e o meu primo foi abatido ao meu lado com um tiro na cabeça. Vi o cérebro dele a pulsar ao meu lado. Tinha apenas 12 anos. Fiquei traumatizado». Não, não fiquei traumatizado. Fiquei mais forte.

Tal como o "100 Maneiras" hoje em dia. Como surgiu esse projecto?
Estava na "Fortaleza do Guincho" como Chef Tournant. Já tinha passado por França, Espanha e também já tinha trabalhado em diversos hotéis portugueses. Quis sair da "Fortaleza do Guincho", isto por causa do racismo e do preconceito que o chef de então exercia - chamava-se Marc Le Ouedec. Certo dia ia-lhe partindo a boca, porque tratou muito mal um preto que lá trabalhava. Tive de sair do hotel.

Não houve garfos desta vez...
Não houve garfos, nem tem de haver sempre. Como te digo, sou um gajo muito porreiro. Não sou tão agressivo como tentam transmitir. Mas na "Fortaleza do Guincho" esteve lá um gajo a estagiar, o José Avillez - que hoje também está na ribalta. Conheci-o e resolvemos abrir um restaurante. Eu era o chef de cozinha e depois passei a sócio, sempre com aquela minha atitude de "bater na mesa": eu faço assim e isto funciona. Toda a gente chegou à conclusão de que eu era maluco e então deram-me sociedade. O projecto durou 8 meses, provavelmente porque não aguentámos com as nossas diferentes maneiras de ver as coisas, de trabalhar. Ele seguiu o seu caminho e eu cá fiquei com o meu "100 Maneiras".

Após algum tempo o "100 Maneiras" faliu.
Sim, após 5 anos.

Consideras que foi aí que falhaste realmente?
Não. Considero que foi aí que me aconteceu a segunda melhor coisa da minha vida.

Porquê?
Porque foi graças a essa falência que consegui construir o melhor negócio de restauração do mundo. Parei, pensei e fiz um restaurante que nunca vai à falência, que é o "100 Maneiras" do Bairro Alto: o restaurante de luxo mais lucrativo do país. Antes disso, estive dois meses fechado em casa, a bater com a cabeça na parede e a pensar que devia dinheiro a toda a gente. Nem casa tinha. E foi nessa altura que percebi que não tinha um único amigo, excepto uma pessoa que me convidou para ir viver lá em sua casa. Foi aí que percebi o que era ser realmente português: «É melhor a tua vaca morrer do que a minha nascer». Mas não bati em ninguém, não me chateei com ninguém e não espetei garfos em ninguém. Fechei-me em casa durante dois meses, cozinhei todos os dias e, finalmente, o Fausto Lopes, esse meu único amigo, meteu-me 10 mil euros na mão e disse-me: «Curte e diverte-te». Aí, em vez de ir sair e divertir-me acordava todos os dias às sete da manhã, fazia compras e cozinhava até não poder mais! Fazia 30 ou 50 pratos por dia e acabei por descobri que podia desenvolver um conceito formidável: o Menu Degustação, com preço único e mais barato. Virei-me para o Fausto, pedi-lhe mais 30 mil euros e ele deu-mos sem hesitar. Tornou-se no meu sócio, construímos o restaurante, pagámo-lo em três meses e num ano saldei as minhas dívidas todas.

Tens várias receitas no teu site do "100 Maneiras". Não tens problemas em expor os teus truques e os teus segredos assim para toda a gente?
Por acaso tenho-me apercebido muito de uma coisa: as pessoas em Portugal têm o hábito de copiar aquilo que as outras fazem. Tenho encontrado muitas coisas por aí, por exemplo, em alguns chefs do Porto, que se limitam quase a tirar uma fotocópia da minha receita e a usá-la por inteiro nos "seus" pratos. É que nem metem uma pitada de sal a mais! Mas muito sinceramente, isso não me incomoda nada. Falo com esses chefs sempre de igual forma. Porquê? Ora, porque um gajo é bom por alguma razão! Então que copiem! Assim não tenho a mínima dúvida de que capacidade criativa é coisa que não me falta.

E como é que crias os teus pratos?
Simples. Hoje em dia faço isso em pouco tempo. É só pensarmos um pouco: o que eu mais faço na vida e onde gasto mais dinheiro é a comer. E comendo, bebendo, sentido e cheirando é como descubro as coisas. Mas simplifiquemos: diz-me um ingrediente. Carne ou peixe.

Um ingrediente? Robalo.
Foste para o robalo. Vamos pensar: o Robalo sabe a mar. É um peixe branco. Tem níveis de albumina superiores a 40%, o que quer dizer que é um peixe gordo. É predador. Caça caranguejo, que é a principalmente alimentação dele. Não come algas. Perfeito. Com o que é que podemos ligar? Se ele vem do mar então correlacionamos com a terra! Para contrastar, usamos cogumelos. Molho? De caranguejo ou de camarão, daquilo que ele come. É assim que se criam receitas. É assim que eu as crio!
Penso num produto, no habitat desse produto, nas épocas de desova, por exemplo, e assim sigo. Neste caso, a desova do Robalo é em Fevereiro. Em Fevereiro há muita chuva. Óptimo! Viramo-nos para os cogumelos silvestres então. Tudo liga. Mas falta ferro. Vamos para os espinafres. Salteados, de preferência. É só isto. É assim que se faz "magia".

Há aí muito estudo da tua parte...
Mas é claro! Já li mais de oito mil livros sobre cozinha! Devo ter a maior biblioteca privada de gastronomia do Mundo! Agora até ando a ler as Enciclopédias da Alimentação Mundial. Por exemplo, sabes como é que a manga chegou ao Brasil?

Não faço a menor ideia...
Mas é que ninguém sabe! Chegou graças aos portugueses, através da Índia, e passando pela Madeira. Olha, e falando em Madeira: sabes como é que a cachaça chegou ao Brasil? Como é que se desenvolveu o conceito de caipirinha?

Sei que sabe bem, mas continuo a não fazer a mínima ideia...
Óptimo. Pensa: qual é a bebida tradicional da Madeira?

A Poncha.
Quais os primeiros descobridores a chegarem ao Brasil?

Os Portugueses!
E onde é que achas que eles pararam antes?! Pararam na Madeira, rapaz! E o que é que se bebia - e bebe - na Madeira? Poncha, pá! Então agora junta os pontos e percebes como é que os brasileiros inventaram a caipirinha. Fácil!

Mas quando cozinhas não te inspiras nos sabores da tua terra?
Inspiro-me em tudo, pode-se dizer. Obviamente que sou influenciado pela cozinha da minha mãe, por exemplo. Tenho pratos aqui dentro que são feitos por ela. Ainda hoje ela trabalha comigo! Tudo é uma inspiração, não só o que me lembro da minha terra. Até uma boa sessão de sexo com a minha mulher me serve para cozinhar algo de fantástico!

O que me leva a perguntar-te: sexo ou comida?
Os dois juntos! Não consigo desassociar uma coisa da outra, até porque as duas são vontades de comer.

Achas que se tocam, de alguma forma?
Sim. Tens sensações iguais com comida como na cama com a tua mulher, por exemplo. São iguais! Quando estás na cama, estás com vontade, estás ansioso. Quando tens fome, também. Quando cozinhas tens a necessidade de tocar em tudo, de sentir tudo. Na cama é a mesma coisa! Antes de penetrares a tua mulher tens de a conhecer, tens de a deixar excitada e preparada. Tens de a deixar feliz. Por isso é que eu digo que existe uma enorme semelhança entre o sexo e a comida e é para mim extremamente difícil diferenciar tais experiências. É uma ligação perfeita.

E o sexo é uma fonte de inspiração também?
Claro. É uma das melhores fontes de inspiração. Não tenhas dúvida nenhuma!

As mulheres portuguesas são mais belas do que na Jugoslávia?
A nível físico são completamente diferentes. As mulheres Jugoslavas são magras e altas. Aqui não. Existe de tudo um pouco! Mas posso dizer-te que foi uma das formas que usei para crescer. Foi dar tudo o que tinha a dar a estas mulheres. Foi dar-lhes paixão e amor. E foi assim que aprendi muito do que sei sobre este país. Foi assim que aprendi a ler e a escrever em português. Foi assim que aprendi a falar português. Foi através dessas mulheres que conheci a cultura deste país.

País esse que já é praticamente teu, “Lubjim”...é que ainda não acertei no teu nome! Não é nada fácil de pronunciar.
Sim, é verdade. É um nome difícil. Significa "paz e amor" e provém da Checoslováquia.

Já te valeu uma boa fornada de alcunhas, não?
Sim, várias. Os meus amigos chamam-me "Ljubo", por exemplo. Depois tenho um amigo que me chama "Tamborilovic", por causa do peixe. Um outro chama-me "Batata", porque sou maluco por batatas. Alcunhas são coisas que não me faltam.

Criatividade também não te falta, já vi. És tu que tratas da decoração dos teus restaurantes?
Sim, obviamente! Tratei de todos os restaurantes, inclusive este que é histórico e que remonta ao ano de 1854. E a verdade é que parti-o todo. Todo! Não ficou nada em pé e está dez vezes mais bonito. Tem agora mais a ver comigo. Tem de ter mamas de fora nos quadros, tem de ter estendais de roupa. Isso é Portugal! Olha para essa parede aí mesmo atrás de ti...

Conheço aquele stencil, por acaso.
Claro que conheces, mas não é só isso. São as cuecas penduradas também. É tudo isso e tudo isso é Lisboa. Por exemplo, tenho um prato, o "Estendal de Roupa", no restaurante do Bairro Alto, que surgiu da minha paixão pelo Pavilhão de Portugal, do Siza Vieira. Fiz uma pala, juntei-lhe molas, pequenos fios onde pendurar a "roupa" e, agora, o que lá penduro é bacalhau que tu podes tirar e comer. Tudo isto veio da inspiração que é para mim o Bairro Alto.


Gostas de todos os teus pratos da mesma maneira?
Gosto de todos eles, porque são feitos por mim, obviamente. Mas não gosto de todos da mesma maneira. Nem pensar. Cada um é uma experiência, uma viagem.

Algum que se destaque?
Não. Nem por isso. Cada um provoca em mim sensações diferentes. É impossível escolher!

Não há nenhum que “jogue” com as tuas emoções?
Sim, isso sim. Muito deles "brincam" com as minhas emoções. Todos eles me lembram algo - e já criei milhões de pratos - e despertam em mim uma reacção ou uma emoção assim para o diferente.

E como é que foi para ti a experiência do MasterChef?
Tinha a opinião de que não queria entrar na televisão, de que não queria todo esse mediatismo. Mas as pessoas mudam e eu não sou excepção. Então há um ano atrás pensei: «Quero fazer um programa de televisão!». Era uma outra altura da vida: ainda não tinha falido e estava completamente lançado. Lá apareceu o MasterChef e arranquei com o projecto. Foi uma experiência excelente.

Mas convidaram-te ou “fizeste-te de convidado”?
Eu já tinha escrito algumas coisas para a RTP1. Já lhes tinha enviado diversos formatos que um dia pensava vir a realizar. O livro "Papa Quilómetros" é um exemplo disso e, acredito, um dia destes há-de estar na televisão. Posso apenas dizer-te que foi uma oportunidade incrível. Ao nível da minha carreira, sentia que precisava de algo novo. Aquilo de que realmente gostei foi da oportunidade de descobrir como funcionam, por exemplo, as câmaras, como funcionam as pessoas e tudo o mais. Observar aquele realizador que parecia um chef na sua cozinha, a ordenar quais as câmaras que entravam...foi formidável. Para além disso sentia-me como peixe na água. Fiz tudo aquilo que gosto de fazer e não tive de mudar rigorosamente nada.

Acabaste por te dar bem com os concorrentes?
Sim, posso dizer que sim. Gostei muito do Viriato, por exemplo. Lembro-me que quando ele perdeu por causa daquela estupidez do gengibre, no final do programa, espetei-lhe um soco no peito e disse-lhe que no dia a seguir estaria à espera dele, às nove da manhã, no meu restaurante para o meter a trabalhar. Cheguei às 8h45 e o sacana já cá estava à porta.

Há muitos gritos na tua cozinha? És o Gordon Ramsay jugoslavo?
Não sou nenhum Gordon Ramsay. Sou o Ljubomir Stanisic e sou como sou.

Mas gritas tanto como ele?
Grito muito, sim. Não tenhas dúvida nenhuma. Chef que não grita na cozinha é um fraquinho.

A sério?...
Claro, pá! Então como é que é suposto eu meter ordem em mais de 20 pessoas?! Faço-o calado?

Claro que não, mas tens de admitir que faz impressão ver um homem a desatar aos berros quando gere um posto.
O Ramsay grita demais. Fá-lo porque está num programa. Na realidade as coisas são um bocado diferentes, mas não posso deixar de gritar na mesma! Então eu quero um risotto, peço-o a um dos meus chefs, ele não mo dá e eu vou lá fazer-lhe festinhas? Nada disso! Tenho de mostrar que o risotto é para ontem, Tiago! É assim.

Já tiveste queixas de clientes?
Sim, já as tive em todo o lado.

Lembraste de alguma em especial?
Sim, ficou-me uma na cabeça: tenho um amigo, um grande betinho, que tem uma agência de eventos que coordena coisas em todo o mundo. Certo dia veio cá e trouxe dois amigos de duas outras agências. Veio para cá convencido de que se ia armar em bom e em espertalhão, percebes? Então lá começou com os petiscos e toda a refeição dele foi à base disso. Não pediu mais nada. No final chama a empregada e, em frente aos tais dois amigos, diz-lhe: «Ouça, gostei muito de tudo, mas se calhar é melhor ir dizer ao chef que era pouca comida». Nesse dia tinha umas 60 pessoas a trabalharem na cozinha, tudo a rebentar pelas costuras e ainda tive de levar com aquela boquinha. Perguntei logo à rapariga quem é que lhe tinha dito aquilo. Qual não é o meu espanto quando ela aponta para esse meu amigo. Parei um segundo e resolvi lixar o gajo: fui ao armazém e descobri para lá uma cabeça de porco com 30 quilos. Peguei naquilo, meti-a no forno com a temperatura no máximo durante uma meia hora até ficar crocante. Tirei-a cá para fora, espetei com uma maçã na boca do porco, pus a cabeça num tabuleiro gigante de prata e pedi a um dos meus empregados para meter uma aparelhagem ao ombro e a tocar Emir Kusturica. Ele põe a música a tocar, eu abro a porta da cozinha, saio com uma cabeça de porco quase maior do que eu nos braços e atrás de mim vêm todos os meus empregados a dançar ao ritmo do Kusturica. Parámos a cozinha e entupimos o restaurante! Cheguei então à mesa, pedi para desligarem a música e perguntei bem alto: «Desculpem lá, mas foi nesta mesa que se queixaram de que a comida era pouca?». Ninguém teve tempo sequer para me responder porque agarrei logo na merda da cabeça e espetei com ela na mesa! Obviamente que as 100 pessoas que cá estavam se levantaram todas e começaram a bater palmas e a rir-se à desgarrada. Conclusão: o betinho ficou todo borrado e sem saber onde se enfiar. Mas até ele se divertiu e acabou por tirar umas fotos e meter no Facebook.

E já fizeste “amigos” entre a comida portuguesa também? Quais os teus pratos favoritos?
Adoro comida alentejana, por exemplo. Dou-te 10 pratos! Sopa de cação - não existe nenhuma igual no mundo. Migas - é um prato do caraças. Açordas - do melhor que há. Não me lembro de mais, portanto por agora largo o Alentejo: ameijôas à bulhão pato - o melhor prato de marisco do mundo. Cabidela de galinha - adoro pratos com sangue e a cabidela não é excepção.

Faltam cinco...
Gosto de Bolo de Caco, também. Adoro o peixe português e aí destaco o vosso atum - o melhor do mundo -, os salmonetes - pelos quais sou fanático - e as sardinhas - que são "o" prato. É difícil. Eu sou um fanático por comida, já comi tudo!

Porque é que voltaste a apostar em restaurantes depois da falência do em Cascais?
Porque não desisti de mim.

O que é que mudou do "100 Maneiras" de Cascais para estes três?
Mudei eu.

A comida continua igual?
Mudei eu, mudei eu. Só. Mais nada. A cozinha é minha. É diferente, mas tem alguma linha, tem alguma lógica. Quem comeu lá, quem come aqui, identifica sempre o Ljubomir. Agora, o que é que mudou? Mudei eu, pessoalmente. No meu antigo restaurante em Cascais tinhas, por exemplo, de ter o telemóvel desligado e de comer em silêncio. Ora, onde é que hoje em dia tal acontece?! Eu quero é restaurantes onde há barulho, onde as pessoas estão felizes, gritam, atiram talheres, há bom comer, bom ambiente e muito ritmo. Eu quero que os meus clientes se sintam bem na minha casa. Perguntas-me o que mudou? Digo-te que mudei eu, porque cresci.

E para o futuro? Já sabes se queres ficar em Portugal ou se gostavas de voltar à tua Terra Natal?
Voltar à Terra Natal só mesmo para ir lá buscar aquele queijo Kaimak e para fazer umas férias. Tirando isso, não volto a meter lá os pés. A ideia é ficar em Portugal até se fartarem de mim. Sem dúvida nenhuma. Por agora estou por aqui e só vou saindo quando surge a possibilidade de desenvolver novos projectos lá fora.

Que projectos são esses?
Calma. Vamos ver. Mas uma coisa te garanto: vão ser restaurantes. Os meus restaurantes.

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Fotografia: Constantino Leite