9 de março de 2010

Conversa de "Merda"

Minha gente! Paira hoje aqui um texto sobre a palavra "Merda". Foi escrito para a caríssima cadeira de Técnicas de Expressão do Português. Achei interessante revelar o contexto. Ora, divirtam-se!

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Sempre me indaguei sobre os juízos de valor que nós, seres humanos, tiramos das palavras. Como é que ligamos tanto, mas tanto, a um execrável magote de letras e tão pouco, ou mesmo nada, às acções? Afinal o que é que perpetua nesse jogo entre tempo e memória? O que fica realmente para ser recordado? O simples som ou o desatinante gesto?
Perdemo-nos em banalidades quase que diariamente. Se me levantar num transporte público e disser alto e bom som a palavra “merda” sou um malcriado, um jovem sem qualquer educação. Um malandro! No entanto, e se em tom de simpatia, me levantar e disponibilizar o meu lugar, ainda quente, a uma senhora que já trata o tempo por “tu”, sou apenas um moço gentil, mas que passou despercebido no meio de toda aquela gente. O ponto a sublinhar é a irrelevância que as palavras deveriam ter nesta ainda maior irrelevância que é, por si só, a vida.
Optei pela palavra “merda” porque desesperei. Tive medo de fazer sentido e cair na maçadora teia da previsibilidade. Seria uma chatice vir para aqui debitar conceitos, que nem um senhor da razão, sobre a palavra “objectivo”, ou sobre a palavra “destino”, ou, e esta é a melhor, sobre a palavra “amor”. Porque não desafiar então as leis e, tal e qual um puto na fase da puberdade, desatar a falar sobre nada mais, nada menos do que “merda”? O que pode ser pior que isso? Muita coisa. E o que pode ser melhor? Muita coisa, também. A piada reside aí, perceba-se. Ou sai uma grandíssima “merda” ou uma “merda” espectacular e digna de figurar num daqueles livros dementes do Nuno Markl ou do Nilton. Nunca têm piada ou pontinha por onde se pegue, mas a malta compra.
O giro deste texto é que ninguém o vai comprar. O mais giro será mesmo o facto de que, se pudesse ser comprado, ninguém o faria, nem com uma valente “borracheira” em cima. Ora aí está uma outra excelente palavra: “borracheira”. O problema é que eu vou dar sempre ao mesmo. Ou fica uma valente “merda” ou então foi um texto escrito num claro momento de, lá está, “borracheira”. Sim senhor! A criatividade dá para tudo, até para apelidar o autor de doidivanas e leviano. Mas não percamos mais tempo por aqui, até porque escrever um texto sobre a bela noção de “leviano” dava-me pano para mangas, mas não me sinto assim, de momento, tão “emborrachado”.
Tão bom que é começar um texto e saber logo a nota que vou dignamente receber como avaliação. Mereço a admiração e o devido respeito por adiantar trabalho e escrever, mesmo na capa, e em letras garrafais, o parecer respectivo e consequentemente retraído que o docente vai ter após a leitura destas palavras. “Bem...mas que grande merda!”, pensará ele. Eu penso em tudo, em tudo mesmo. Tanto penso que acabo por me lembrar que, no final, seria justo perdurarem os actos e nunca as palavras. Dessa forma eu teria o espaço e a possibilidade de ser olhado como um louco, mas cheio de boas intenções, claro está! Se tal não se der, serei apenas julgado como um valente preguiçoso, que numa valente onda de preguiça, optou por escrever um valente texto de “merda”. Olha que bem!
Resta-me apenas dizer que a língua portuguesa não me chega. É como um beijo, nunca nos ficamos por lá, é mais forte do que nós! No final, eu preciso é de algo que me desafie. Preciso, qual célere paixão de Verão que nos desperta os sentidos, de um grito que me acorde e que me dê força para levar este tórpido corpo para a frente. Preciso de um valoroso “Deixa-te de merdas!” para me conseguir...para conseguir, no final, nem sei bem o quê!
E nunca a palavra "merda" ganhou tanto sentido na história da língua!

4 comentários:

comboiodecordas disse...

the "til" does the trick.
Mas que bela merda, hein? :)

Miguel Branco disse...

eu adorei, resta saber se o homem vai curtir. Se os blogues deixassem por cheiro...

Ana Teixeira disse...

que coragem :P esta fantástico Tiago, gostei imenso :D

Mª do Rozário disse...

audácia pura, mas gostei!