5 de abril de 2010

O "Grego" da Danone

A Danone saiu um dia de casa e pensou para consigo mesma: "A malta já não lambe muito para os iogurtes, pa. Agora os jovens só gostam é de cerveja, sangria e shot's com labaredas. O que há-de, então, uma marca milenar, como eu, fazer? Como hei-de contrariar tal frustrante tendência alcoólica?!" Escusado será dizer que a Danone também já tinha comido a sua considerável conta de sopas de cavalo cansado quando teve a brilhante ideia de trazer ao mundo, nada mais, nada menos, que: O iogurte "Grego"!
Até aqui tudo bem. Era preciso um chamamento! Era preciso um novo produto que despertasse paixões e levantasse a colher de multidões! Era preciso um iogurte que deleitasse bocas e suas associadas línguas! Era preciso um sabor dos deuses! Era preciso uma paixão, uma daquelas de enlouquecer o mais são dos seres humanos! Era preciso o "Grego"! Ó se era, ó se era!
Meu Deus, como esperámos por tal pequeno e delicado boião de vidro! Jesus Senhor, quanta punição aguentámos só para irmos, sem medos, ao "Grego"! Obrigado ó imponentes e sempre omnipresentes analistas, investidores e accionistas da Danone! Que a consistência iogurtica ilumine a vossa emblemática presença e os vossos sempre conjuntos esforços! Hoje há o "Grego"! Há dias em que o mundo ganha sentido, se os há!
Saiu então o "Grego". Saiu com toda a sua força e pujança. Saiu e conquistou. O malandro, com a sua bela textura e interessante cor, piscou logo o olho a tudo o que eram fêmeas malucas pelas dietas e fê-las esquecer o fatídico selo Light, fê-las esquecer o marido que chega tarde a casa, fê-las esquecer os tachos e panelas por lavar, fê-las esquecer o sacana do puto que anda a comer macacos e a levantar as saias às meninas em vez de prestar atenção nas aulas. Esqueceram tudo, tudo isso e, assim, fervorosamente, ele levou-as a si, levou-as ao "Grego"! E como elas gostaram! Como elas gostaram do "Grego"! Mas ele não se ficou por aí. Não! Afinal, era o novo trunfo da Danone. Era o menino de ouro lá do sítio, não lhe bastavam, pois, as donas de casa ou as mães solteiras com dois empregos e turnos extra para dar e vender. Ele queria mais!
Lavou então o boião, penteou preciosamente o seu topo cremoso, escorreu a chata da aguadilha da qual ninguém gosta, ajeitou as simpáticas letrinhas cravadas em relevo no seu vidro, pediu uma caixa de cara lavada e inovadora aos tais dos accionistas e à malta do marketing e lá foi ele, todo gingão, encontrar não quem quisesse um "Grego", mas desafiar mundos e fundos a irem ao "Grego", a precisarem do "Grego" como nunca a história da humanidade havia visto ou escrito nas suas largas páginas de existência. E agora é a criança, é o bebé, é o avô, é o próprio do jovem que já largou a garrafa de litro e meio para botar a colher no tal do vasilhame, sem tara perdida, refira-se, para fazer o favor ao sacaninha do estômago que ronca e pede por alimento. Agora comemos "Grego"! Agora ligamos a televisão e ouvimos "Compre já o novo 'Grego'! É delicioso e ajuda à digestão!". Agora saímos de casa e levamos com uma descarga de "Grego" em cima, espalhado pelas prateleiras dos supermercados, dentro dos frigoríficos das famílias e colado em cartazes, daqueles bem grandes e que dizem "O SEU ANÚNCIO AQUI!".
Leiam isto, meus caros amigos da Danone. Leiam isto com muita atenção e depois respondam à seguinte pergunta: Não seria possível arranjarem uma merda de um nome que não me fizesse pensar em vomitado quando meto uma porra de uma colher cheia de iogurte à boca?!
Obrigado e um bem-haja.

"Danone Grego": O melhor Grego para qualquer Labrego!

4 de abril de 2010

"Let's go to the Punk-Rock show!"

Deixem-me dizê-lo: sabe tão bem fazer barulho!
Nunca fui grande fã de Punk-Rock. Nunca ouvi assim grandes bandas de Punk e admito não possuir grande bagagem cultural relativamente ao estilo em si, propriamente dito. Mas é nesta altura em que me pergunto: "E é preciso?"
Vai para pouco mais de um mês que me juntei a uma banda. Lá encontrei, tal como já esperava, quatro putos, uns anos mais novos do que eu, totalmente desmiolados, desregrados e desorganizados. Pensei que tal projecto acabaria por sair furado. Pensei que não havia bases para chegarmos a um qualquer lado. Pensei mesmo que não tínhamos o que era preciso para algum dia virmos a fazer música, música a sério. A verdade é que ainda não temos, mas já não penso dessa mesma forma.
A verdade é que encontrei nesses quatro putos um bocado da estúpida rebeldia que às vezes nos faz tanta falta durante a juventude, durante a belíssima da puberdade, como os "crescidos" tanto lhe gostam de chamar. Concluí que nunca fui rebelde, que não o sou, que nunca o hei-de ser, mas que é possível ter os meus momentos de contra-ordenarão permanecendo fiel a mim mesmo e dando espaço a um outro irreverente Tiago para pisar este Mundo e explicitar, da forma mais sarcástica possível, a irrelevância que o próprio Mundo tem tantas vezes neste nosso dia-a-dia, nesta nossa vida. E porra, como a música tem essa capacidade de me fazer sentir livre, de me fazer voar sem querer saber de destinos ou sítios por onde parar ou por onde aterrar. A música é uma daquelas poucas coisas tão irreais e simultaneamente verdadeiras que temos o prazer de conhecer ao longo destas nossas curtas existências terrestres. Há que saber beber e degustar cada um dos seus sons, cada uma das suas notas, cada uma das suas pequenas, mas importantes letras, cada um dos seus ritmados versos, cada uma das suas inteligentes rimas e cada uma das suas estruturadas estrofes, uma por uma e todos ao mesmo tempo. É o verdadeiro exponente da loucura e do brilhantismo! E é, também, a verdadeira prova de que são ambos conceitos relacionáveis e em tudo importantes e inerentes à vida humana.
Dia 1 de Abril foi uma pequena prova dessa mesma realidade que vos tento aqui hoje impingir. Os "Bullet in the System" subiram a um reduzido, mas acolhedor palco, encheram-se de coragem, ainda que completamente borrados, e tocaram, apesar dos vários erros, com todo aquela rebeldia, com toda aquela força que a música dispensa explicação. O "Rock in Chiado" ouviu apenas seis músicas, nenhuma delas nossa, tudo covers, mas eu e estes meus quatro "putos" desmiolados ouvimos uma hipótese de futuro. Não um futuro de fama, sexo, drogas ou Rock & Roll, mas um futuro, por si só, ligado a uns quantos acordes, a uns quantos desafinanços e a uma futura união e amizade que o tempo guardará, dê lá por onde der.

Obrigado, Chiado. Tenham uma boa noite.

29 de março de 2010

Sete Dias

Hoje, caros leitores, deixo por aqui um tal de um conto. Foi escrito, mais uma vez, para a cadeira de Técnicas de Expressão do Português, que me anda a dar um trabalho desgraçado, mas curiosamente interessante e até revelador. Acho que tenho algum jeito para a coisa, apesar de, até agora, não fazer qualquer ideia disso mesmo. Sim, senhor!
Chama-se "Sete Dias" e nada tem a ver com a realidade. Não é baseado em ninguém, nem tem como pedra basilar para sua criação um qualquer outro texto ou história. Se não gostarem, aponto os meus galhardetes para esses importantíssimos motivos. Culpem-nos como fiéis leitores e admiradores (ou não) que são. Obrigado.
Acima de tudo, divirtam-se.

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Lá fora chovia. O céu negro ocultava em si a beleza e a luz de um sol, que, outrora contente, brilhava e se dava a mostrar, presenteando todos os mais inertes com um válido motivo para abandonarem as suas camas pelas primeiras horas da manhã.
Nunca chovera tanto. Os últimos anos haviam trazido consigo uma mal-amada seca e essa seca havia trazido consigo o desaire soturno de uma terra agora esquecida e apenas grande nas suas memórias. Mas agora chovia, trovejava e o tecto desta pequena cidade, lá para os lados de Itália, Florença em pormenor, parecia querer cair a qualquer momento sobre as desiludidas e cabisbaixas cabeças que se deixavam afogar no falso descanso que o domingo lhes trazia, com um sorriso amarelo, todas as semanas.
Era cedo e já Genaro estava a pé. Pouco ou nada tinha dormido e tudo porque o olhar dela continuava na sua mente. Ele, que tanto estimava uma boa noite de sono, era agora o homem que fazia companhia às estrelas, escuridão adentro, até chegar a manhã, sempre tímida e, nos últimos dias, nunca acompanhada do seu amante, o tal do sol. Sentia-se tão cansado e tão simultaneamente vivo. Agora sim, haviam motivos. Havia um porquê para sorrir aparvalhadamente, havia um porquê para não dormir, havia um porquê para não comer, havia um porquê para pensar, havia um porquê para viver, havia um porquê para todos os porquês. Não era ela, mas eram os seus longos cabelos, os seus carnudos lábios, as suas redondas bochechas, o seu resplandecente sorriso e o seu arrojado decote, delineando, ao de leve, as linhas mais belas e harmoniosamente violentas que ele já havia conhecido em 25 longos anos de vida. Ó, como a vida havia ganho vida!
Foi ao encontro da pouca luz que o seu quarto já abraçava. Lá, puxou a fita até mais não ser possível e abriu o seu estore para aquele que seria um novo domingo, não só mais um domingo, mas o seu domingo, seu e da sua amada. Despreocupado e entretido com mais uma simples tarefa rotineira, a que a vida obriga, pensou e decidiu que o melhor que tinha a fazer era nunca, nunca mais fechar os seus estores. Mas isso podia muito bem ficar para uma outra vida, afinal, eram já sete horas da manhã e ele não podia dar-se ao luxo de perder 17 mais horas de felicidade. Abstraído por estes pensamentos, nem deu pela entrada, de rompante, no quarto, da sua fiel e sempre disponível Madalena, governanta da família há mais de 30 anos, uma segunda mãe e uma primeira quando a sua verdadeira progenitora gastava as horas ao relógio, passeando-se pelos palcos da aristocracia Florentina:
- Menino, bom dia. – começou lentamente a recém-chegada - Não quis incomodar, peço desde já desculpa, mas a família quis adiantar o funeral. Começa daqui a duas horas. O senhor padre lá aceitou depois de tudo o que aconteceu àquela paz de alma. Não merecia, coitada. Não merecia, é o que lhe digo, menino. Valha-nos Deus, valha-nos nosso Senhor!
- Valha-nos o amor, Madalena. Valha-nos o amor. Deus anda ocupado, deixai-o estar.
- Quando o menino fala assim até se me arrepia a espinha! São lá isso coisas que se digam, Genaro?! Ele ouve! Ele ouve e castiga! Olhe, por exemplo, para esta desgraça. Uma santa, que era o que ela era na verdade, que resolve largar tudo, pais inclusive, para se casar com um qualquer, sabe-se lá bem aonde! Bastou-lhe isso, menino! Bastou a Deus ouvir e saber de tal coisa para deixar aquela frágil vida ir acabar-se no leito de um rio, depois de se despistar daquela ponte e...
- Deixe-se disso, meu simpático despertador! – interrompeu-a Genaro da maneira mais simpática que conseguiu – Já lhe disse que esse tal de Deus tem bem mais o que fazer. E assim tenho eu, também. Tenho de me vestir e nem sei ainda o que levar, para tal sítio.
- Tal sítio?! É um funeral, meu filho! Quer ir como? Obviamente que leva o seu mais caro fraque, porque aquela menina merecia-o. Ela que sempre foi o exemplo perfeito da própria perfeição. Leve o fraque e deixe-se de histórias! Podia não a conhecer assim tão bem, mas as vossas famílias sempre se deram pelo melhor. Ainda foram largos anos de convívio, meu filho. Não tem porque pensar!
- Mas tenho, Madalena. Não deve o meu corpo carregar aquilo que a minha alma não veste.
- Genaro, não gosto nada quando abre a boca para dizer tal tipo de coisas. Compreendo que esteja abalado, todos estamos, mas é um cortejo fúnebre, é um último adeus. Pede preto! Não há lá ninguém feliz, meu pequeno!
- Estarei lá eu. Marcarei presença pelo lado obscuro da felicidade, que tanto tem fugido destas nossas terras, destas nossas paragens. Para o bem ou para o mal, lá estarei. Daí achar que o preto me leva um bocadinho da sinceridade. – afirmou Gerano com um sarcástico sorriso nos lábios.
- O que se passa consigo, meu filho? – questionou Madalena claramente apoquentada - Juro que desde há uns dias para cá não me parece o mesmo. Temo, até, que seja obra do diabo. Saiu na segunda-feira de manhã o meu Genaro e voltou umas quantas horas depois o Demo, com uma debaixo da língua, duas nas mãos e três atrás das costas.
- Ó minha cara Madalena, um dia ainda hei-de descobrir onde vai buscar essa brejeira veia poética. Temo é que hoje não será tal dia, para mal dos meus pecados e das minhas mazelas. Deixe-me então vestir o fraque e fazer-lhe a vontade. A minha alma tratará de iluminar o tom negro desta sobrevalorizada peça de roupa que o Homem um dia resolveu impingir ao mundo. Dez minutos e lá estarei em baixo. – fechou Genaro o assunto, querendo alguns momentos consigo mesmo.
Vestiu-se, não ligando em nada aos pormenores, e fez de tudo para parecer o menos aperaltado possível. Sentia-se mal por se sentir tão bem, por ir a um funeral feliz e contente, mas achava que não seria humano refutar tal estado de espírito. Afinal, ele acabara de descobrir o amor e o amor acabara de os descobrir a ambos, a ele e a ela. Há dias de sorte na vida de um homem.
A única coisa que ainda lhe dava forças para enfrentar aquele malfadado funeral era saber que iria encontrar a sua amada horas depois. Essa certeza transmitia-lhe razões suficientes para desprezar o sentimento de angústia inerente a este tipo de “celebrações” católicas. Faltava tão pouco, mas tão pouco tempo, que os minutos queriam transformar-se em horas e as horas em dias, tal e qual como nos livros chatos e sem qualquer conteúdo cultural que os fingidos intelectuais, novos-ricos, liam antes de irem para a cama.
Choros, gemidos, lágrimas e soluços. Enfrentou tudo isso com a cabeça bem levantada e saiu do cemitério, em direcção ao carro, seguro do seu destino e do seu amor, do amor que ia deter em si, para sempre, daqui a alguns míseros instantes. Faltava já tão pouco!
Entrou no seu companheiro de longas viagens e, sem demoras, fez-se à estrada. Seguiu. Estava já a sentir o aroma do seu perfume, daquele perfume que mulher nenhuma conseguiria em tempo algum envergar, só ela. Seguiu. A sua cabeça explodia num misto de sensações prazenteiras e simultaneamente impetuosas. Seguiu. O seu coração disparava de tal forma que tinha até medo que abandonasse o seu peito e, em tom de vingança pelos anos preso e desprezado dentro de uma prisão de ossos, se entregasse a uma qualquer outra jovem, daquelas muito brancas, muito puras, muito virgens, mas que já não sangram. Seguiu.
Chegou. A chuva persistia, não queria dar tréguas. Ele estava já habituado. A vida tinha sido assim com ele, a partir do primeiro dia em que se conheceu. Desde pequeno que admirava os pássaros e toda a sua coragem para voar para lá do alcançável...nunca ele tinha podido voar. Desde pequeno que sonhava em conhecer novos países, novas gentes e novos costumes...nunca ele tinha conquistado aos seus pais a liberdade necessária para conhecer solo para lá de Itália, de Florença. Desde pequeno que lutava para ser um artista, um escritor, um homem livre na sua plena criatividade...nunca ele tinha conhecido a palavra liberdade para além dos livros e das suas bafientas páginas, nem a criatividade para lá daquilo que os melhores professores em toda a Itália tentavam, sempre em vão, ensinar-lhe. E desde pequeno que se sentava, dia sim, dia sim, numa raquítica cadeira de jardim observando a casa dos seus vizinhos, em frente. A casa não lhe interessava, interessava-lhe, sim, aquela menina.
Esperou 25 longos anos de vida por aquela segunda-feira em que saiu de manhã e voltou um outro homem horas depois. Esperou 25 longos anos de vida para a ter, para se terem. Nunca tinha sido homem que bastasse para enfrentar o que a vida lhe atirava para o caminho, mas agora seria diferente.
Contemplando, debaixo de uma enxurrada incessante de chuva, a ponte onde, quase 24 horas antes, a sua amada deixara a sua alma escapar-se-lhe por entre o leito de um rio que não conhecia seca desde aquela segunda-feira, Genaro resolveu lutar. Prometeu que não seria o mesmo, que não deixaria a vida fugir-lhe. Não.
Seguiu. Chegou. Não era bem aquele o sítio onde eles tinham combinado, sete dias antes, casarem-se para nunca, nunca mais voltarem. Mas ela valia a pena. Afinal, ele havia esperado 25 demasiado longos anos para amar aquela Beatriz. O salto era, apenas, uma questão de curtos segundos.

27 de março de 2010

O "Dia do Estudante" 48 Anos Depois

Quarta-feira foi dia de luta estudantil. Os alunos do Ensino Secundário e do Ensino Superior saíram à rua, mais uma vez, e assim mostraram o seu desagrado para com as actuais políticas educativas que o governo PS tem vindo a desenvolver e a abraçar nestes últimos quatro anos e meio.
Contam-se como reivindicações: o fim das propinas, a restruturação responsável e inteligente do famoso Processo de Bolonha, uma Acção Social Escolar decente e dedicada a abrir portas a todos e para todos, a alteração dos regimes jurídicos e de gestão escolar nos quais os alunos têm vindo a perder gradualmente a voz e a possibilidade de intervenção e, por fim, a anulação dos interesses monetários e capitais que arrastam lentamente o Ensino Superior para um emaranhado de burocracias e privatizações que irão, da forma mais seca possível, transformar a educação não num direito garantido, mas num qualquer outro sector empresarial e de aposta corporativa.
É difícil estudar assim. Aliás, deixem-me corrigir: é difícil querer estudar assim. É difícil pensar que tenho o meu curso garantido e que depende de mim e apenas da minha vontade, do meu esforço, acabá-lo no mínimo tempo possível e saber, simultaneamente, que tantos outros jovens neste país vão de braços caídos e com conhecimentos mínimos às costas para um mercado de trabalho que os despreza e explora desde o primeiro segundo de expediente. Assim custa. O Mundo não vive de salvadores ou de boas acções, não nos iludamos. Mas, e digo-o em tom de desespero, não pode continuar a viver destes individualismos.
Fui, desta vez, e em tom de excepção, um outsider entre os meus colegas e camaradas de luta. Enquanto se gritava alto e bom som, as palavras de ordem do costume, e outras um quanto mais elaboradas e improvisadas, eu ia correndo de um lado para o outro a tentar entrevistar alguém que me dissesse um pouco mais sobre o que ali se passava. Mas eu já sabia, não precisava de mais opiniões. Eu mesmo estava ali a defender os meus direitos. Eu mesmo havia distribuído dezenas de documentos informativos por toda a minha universidade. Eu mesmo tenho sofrido na pele com toda esta "brilhante" desresponsabilização governamental, que, no final, deixa sempre as culpas morrerem solteiras ou nos ombros dos menos espadaúdos, que somos nós, pequenos estudantes. Não gostei da sensação de me estar quase que a infiltrar naquela manifestação, na minha manifestação. Pergunto-me: "Até que ponto me levarás tu, imparcialidade?"
As cordas vocais queriam expulsar toda esta frustração, os braços queriam elevar-se bem no ar para que ninguém os visse no meio de tantas pessoas, no meio de tantos lutadores, e o meu coração, a porra deste meu pequeno coração, queria saltar do peito e agredir veemente todas as barreiras que me têm colocado neste percurso em direcção ao futuro, ao que quero ser e, contrastando, àquilo que "eles" querem que eu seja. Ele queria lutar por mim e por todos nós. Mas o "nós" nunca esteve tão desmembrado como hoje.
No (ultra)passado dia 24 de Março de 1962 os estudantes do Ensino Superior juntaram-se e batalharam, literalmente, por aquilo em que acreditavam. Nunca a Cidade Universitária conheceu cenário tão negro e triste como aquele dia, em que jovens foram presos, espancados e, contam os acertados boatos, mortos pela "grandíssima" polícia de então. Eles queriam igualdade, queriam um ensino para todos, sem olhar a credos, religiões, raças, nacionalidades ou condições socio-económicas. Muita coisa queriam eles e acabaram foi por conhecer o "xadrez" da esquadra mais próxima, lá para os lados de Alvalade, julgo. A sede da PIDE foi a paragem seguinte. Interessante como nada conseguiram, mas mesmo assim, ainda hoje perpetuamos nestes ridículos tempos de apatia a sua memória e a sua coragem.
Agora não. Agora saímos à rua e levantamos a voz em protesto de melhorias, de restruturações e, mesmo assim, grande parte de nós acaba por nem sair. O conforto sabe-nos tão bem e enquanto o mal maior não nos atingir há muito espaço de manobra para contornar as divisas do bom senso e deixar os protestos e as reivindicações para os outros, para os desgraçados. Já ouvi, inclusive, algo tão belo como: "Acabar com as propinas?! Façam isso e levamos logo com a "xungaria" toda!" Pergunto-me se não levamos já...
Tenham juízo, baixem a cabeça, boquinha calada e acabem o curso. Mas amanhã não se queixem...

Deixo, em tom de despedida, um agradecimento especial à fotógrafa com os olhos mais bonitos no ramo.
As fotos são dela, Ana Rita Bernardo. Eu não faço destas coisas.

26 de março de 2010

O Rejuvenescimento Político em Portugal

Consegui.
Foi um mês fodido. Sim, fodido. É a única palavra que me vem à cabeça capaz de descrever o anterior, e por muitos já esquecido, mês de Novembro. Estávamos ainda em 2009, eu andava ainda entretido a desmembrar lentamente o conceito de "Jornalismo" e lembro-me bem que estava, constantemente, um frio de ananases.
Deixemos isso. Quis vir aqui hoje deixar-vos algo. Peço, antes de mais, muitas desculpas pela minha ausência e pela consequente ausência de textos. A universidade é mesmo um bicho de sete cabeças, um daqueles bichos que nos dá vontade de sorrir e sonhar com um futuro cheio de possibilidades e caminhos. Sonhar nunca fez mal, espero eu.
O que vão ler a seguir é uma reportagem de minha autoria escrita para o jornal da minha universidade, a Escola Superior de Comunicação Social. O jornal chama-se "8ª Colina" e sai, imaginem só (!), em associação com o jornal "Público". Sim, com o jornal "Público". É quase a realização de um sonho, de um daqueles sonhos que referi umas linhas acima.
Guardei este post para hoje, porque foi hoje que esse sonho saiu à rua acompanhado de uns tantos mais textos e de uns tantos mais jornalistas com os quais gostaria de vir, quem sabe, a trabalhar um dia destes. A vida tem destas coisas.
Espero sinceramente que gostem.

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Começou um novo ciclo político em Portugal. As eleições legislativas trouxeram consigo a derrota de uma maioria absoluta socialista, assim como o crescimento de certas forças políticas que nunca até hoje haviam conseguido ganhar grande protagonismo na conjuntura parlamentar.
Constantemente acusados de se refugiarem num Mundo de egocentrismo e abstracção pessoal, os jovens tomam hoje as rédeas daquilo que virá a ser o futuro da nossa sociedade. É neles que reside a expectativa de lutar por uma transformação e revitalização de todos os aspectos sociais, políticos e económicos que afectam o dia-a-dia de cada cidadão. A indiferença não é, ainda para mais numa altura em que graves problemas deterioram a consistência da contemporaneidade mundial, uma possibilidade de caminho.
Tomadas de posição precisam-se, assim como se precisa de líderes, ou, se preferirem, orientadores. Fomos, então, à Assembleia da República conhecer as jovens mãos nas quais o país vai estar assente durante os próximos anos. Para tal, tivemos como prestáveis intérpretes Rita Rato, de 26 anos, licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, funcionária e deputada do PCP pelo Círculo Eleitoral de Lisboa. Michael Seufert, também de 26 anos, mestrando em Engenharia Electrotécnica e de Computadores, deputado do CDS-PP pelo Círculo do Porto, e ainda António Leitão Amaro, de 29 anos, doutorando em Direito, professor universitário e deputado do PSD por Lisboa. Todos os três mostraram ser o modelo perfeito do jovem português que trabalha hoje por um futuro melhor e que, associado à política, acredita e defende com unhas e dentes aquelas que pensa serem as medidas ideais a tomar a curto e a longo prazo.
Mas até que ponto o posicionamento político não se sobrepõe ao factor idade nas escolhas e nos rumos a tomar? Poderá a política ser o principal problema...político? Rita Rato disse-nos, por exemplo, “que a grande diferença não é entre gerações, mas entre classes sociais”, o que significa que “não é por serem jovens que [os deputados] não estão de acordo, mas sim porque têm uma outra visão.” Isso revela uma tendência claramente preocupante, pois continua a ser deixada para segundo plano a partilha de soluções entre partidos. Então e os constantes problemas que afectam os jovens na educação, no acesso à cultura, no arrendamento jovem, na inserção e no justo aproveitamento no mercado de trabalho?
Quando inquirido sobre a desigualdade no acesso à cultura, António Leitão Amaro referiu que é necessário “haver uma verdadeira pluralidade de vozes” e que os produtos culturais a que o povo tem acesso não podem ser simplesmente escolhidos por “um conjunto de burocratas”, opinião partilhada por Rita Rato. Esta defende também que até hoje “os governos não têm tido uma política cultural integrada”, que se preocupe com a “grande maioria” que, por motivos económicos, não consegue aceder ao mundo cultural.
Já nos aspectos laborais as tendências são outras. Michael Seufert defendeu numa das suas intervenções parlamentares que os jovens portugueses “só querem trabalhar”. Apoia também que “deve haver alguma flexibilização do mercado laboral que permita às empresas organizarem-se de uma forma mais eficaz”, concepção suportada também por António Leitão Amaro, que acusa o Estado de querer “obsessivamente controlar e com isso burocratizar e parar tudo”. Já Rita Rato opta antes por insistir no desrespeito pelos “direitos laborais consagrados”, afirmando que “o que põe em causa o desenvolvimento [económico] não são os direitos laborais, mas a falta desses mesmos direitos”. No fundo pede-se ao Estado que tome uma posição e, acima de tudo, que respeite os jovens trabalhadores e o facto de estes estarem no “início de vida, logo em situação mais vulnerável”, como refere a deputada do PCP. Pede-se tudo isso, mas de formas muito diferentes. De um lado puxa-se ao de leve a corda para a iniciativa privada e para a liberalização do sector económico (CDS e PSD), enquanto do outro se tenta assegurar que o Governo proteja sem quaisquer limitações a classe operária (PCP). O mesmo se passa com as temáticas do ambiente e das obras públicas: as bases propostas parecem algo semelhantes nos três partidos, mas revela-se uma enorme discrepância quando se trata de conceber o envolvimento nessas matérias dos sectores privado e público.
Tira-se, por fim, a ilação de que a renovação e a inovação que os mais jovens podem trazer à realidade política em Portugal é, sem qualquer dúvida, condicionada por uma vasta colecção de complexidades ideológicas que se têm cristalizado ao longo de tempo. A discordância entre ideologias tem de ser vista como algo categórico, isso é certo. Mas quando essa discordância não nos traz nada mais do que debilidade de escolhas e critérios, é necessário que a repensemos para bem da humanidade e do tal amanhã que rebola relutantemente pelas nossas mãos.