14 de março de 2014

Tottenham 1-3 Benfica: Bifes? Peanuts!

Há noites que não se esquecem. Um primeiro beijo. Uma estúpida bebedeira. Uma boa “conversa” de cama. A morte de um familiar próximo. O adeus a um amigo que segue para o estrangeiro. Um fantástico jogo de futebol. Hoje vivemos e respirámos um desses. Um desses jogos que, de tão fantásticos, superam mesmo o conceito de “noite” e alongam-se no tempo de forma incomensurável.

Um pouco como o jogo que o Benfica levou para Inglaterra. A bem ou a mal, Jorge Jesus pegou mais uma vez neste plantel e espremeu-o de tal forma que o tornou infinito e pau para toda a obra. Aliás, as surpresas ao início foram prova disso mesmo: Oblak permaneceu na baliza, Sílvio deixou mais uma vez no banco um antigo e recorrente europeu André Almeida, Rúben Amorim preencheu o meio em detrimento de Enzo Pérez, Sulejmani deu descanso ao mágico Gaitán e Cardozo voltou à titularidade para se juntar a Rodrigo no ataque.

Começa a partida e começam também os cânticos dos Diabos Vermelhos e No Name Boys, que só se renderiam ao silêncio aquando do apito final. Um apoio de outro mundo. Benfiquistas à Benfica. E um Benfica que ameaçava não se render à casa cheia dos Spurs, que ainda andavam mal do estômago depois dos quatro golos encaixados no fim-de-semana contra o Chelsea. Adebayor, no entanto, vinha a jogo para dar trabalho a Luisão e Garay, coisa que felizmente só aconteceu nos primeiros minutos. Porque mal o Tottenham tirou o pé do acelerador foi tempo de o meio-campo encarnado rodar bola, puxar os ingleses para a frente e, com muito jeitinho, abrir espaço nas costas. E, coincidência ou não, aos 29 minutos, um lutador Rúben Amorim pega na redondinha, leva árbitro e dois adversários à frente e inventa – literalmente – um passe que é três quartos de golo. Rodrigo, com uma arrancada à Bolt, deixa o pobrezinho Naughton para trás e, da esquerda para o meio, faz um remate a fugir ao guarda-redes da casa. Sem espinhas.
Um colocadíssimo primeiro golo in Facebook do Sport Lisboa e Benfica (Isabel Cutileiro)
Ainda antes de acabar a primeira parte, o extremo esquerdo Eriksen puxa de um cruzamento que só Garay consegue travar e está dado o mote para aquele que seria o restante jogo: Benfica contra Eriksen (com a ajuda lá pelo meio de Lennon, na direita, e Kane, ao meio). Apito do árbitro e um primeiro tempo com um conjunto encarnado cheio de simplicidade e disciplina, trunfos que valiam (e justificavam) o adiantamento no marcador num jogo que o Tottenham queria claramente ganhar…mas não sabia como.

Pontapé na bola e vamos aos últimos 45 minutos. O Benfica precisava de muita cabeça e de muito auto-controlo para poder voltar a Lisboa dono e senhor desta eliminatória…e foi exactamente isso que faltou logo três minutos depois de se retomar a partida. Sem se perceber muito bem como, Luisão deixa em jogo Adebayor que sozinho e em excelente posição atira, da forma mais infantil e incrédula de sempre, o esférico para as ervas daninhas ao lado da baliza do jovem Oblak. “Mais dessas”, pedi eu aqui em casa, isto depois de atirar um copo à parede por causa da paragem cerebral do nosso capitão. Mas o Girafa quis redimir-se. Nem dez minutos depois, Rúben Amorim – que jogo enorme do português – roubou a bola a um distraído Kane e atirou para a defesa da noite. Não contente voltou a agarrar na bola, cobrou o canto para o Glorioso e Luisão fez o dois a zero com uma gloriosa cabeçada. Não fossem os festejos encarnados nas bancadas e ouvir-se-ia o ranger de dentes de Sherwood, homem que promete mudanças para o ano vindouro…arriscando-se a ser ele mesmo a maior de todas. Faltava o último prego no caixão.
O capitão Luisão assinou um bis in Facebook do Sport Lisboa e Benfica (Isabel Cutileiro)
Mas não. Porque o Benfica é assim. E porque benfiquista que é benfiquista tem de sofrer até ao fim. Depois de uma enorme arrancada pelo lado esquerdo, um inconformado Eriksen é rasteirado por um apagado Sílvio. Livre perigoso para os ingleses e um golo teleguiado. Oblak talvez pudesse ter feito mais, mas a concretização é de facto notável. O Tottenham reduzia a desvantagem numa altura em que o Benfica tinha o jogo controlado. Peito cheio de Eriksen, o único que, cheio de coração, não parou de remar contra a maré. Mas maré que é maré leva tudo consigo. E assim foi este Benfica, que não quis voltar nervoso a casa. Crédito para Jorge Jesus que tira os dois jogadores mais desaparecidos da noite, Sulejmani e Cardozo, dando espaço a Gaitán e Enzo, dois “desbloqueadores” natos. Ou vai ou racha!

E era para rachar mesmo. Rodrigo ia fazendo o terceiro depois de um erro enorme do guarda-redes Lloris e é o recém-entrado Gaitán – de prever, certo? – que minutos depois arranca a falta ao tal pobre Naughton. Conversão e Garay a atirar de cabeça para a defesa do guardião da casa, quando na recarga surge um Luisão ponta-de-lança com uma “pastilha” enorme que ainda vai à barra, mas que acaba nas redes dos Spurs.

Hora de apanhar o avião. E o resto é conversa. Ou peanuts.


A(s) Figura(s)
Luisão e Rúben Amorim - Hoje quebro as regras e elejo dois senhores do futebol encarnado. Dois que já cá andam há muito, muito tempo. Um deles merece mais. E prova-o todas as vezes que pisa o relvado. Se Luisão foi enorme, Amorim foi genial. Ela por ela. Taco a taco. E por isso um pódio repartido.

O Fora-de-Jogo
Tottenham - Perdoem-me a falta de criatividade na escolha, mas ou é o Benfica que merece estar na Champions ou é este Tottenham que não merece sequer estar numa competição além-Inglaterra. Please come back, Villas-Boas?

Artigo presente no sítio de desporto online

4 de março de 2014

Ora fia-te na Virgem e não os metas a correr, Jesus

Somos a melhor equipa em Portugal. Já o ano passado o éramos. E no ano anterior também. Vítor Pereira não era nem treinador, nem adversário para este Benfica. Nem para este, nem para o de então. E os jogadores do Porto não tinham o poderio necessário para sair por cima no final do Campeonato. Mas saíram. Por duas vezes. Seguidas. Sem espinhas. A não ser aquelas que entaladas ficaram na garganta de todos nós, benfiquistas, quando vimos o hoje-em-dia-muito-triste-e-calimero Kelvin facturar o golo mais desnorteante na história do Benfica.

Bom, e se o passado se converter em futuro? É que há um motivo para o melhor treinador em Portugal não ser campeão em catadupa: o inconseguimento – como diria Assunção Esteves. Ponha-se os olhos no Benfica dos últimos quase cinco anos: uma equipa concretizadora. Com atitude. Inteligente. Forte na defesa. Malandra no ataque. Capaz de dar cartas aqui e lá fora. Mas a quem falta sempre qualquer coisa. E o problema é que não falamos de um bom central, ou de um fantástico ponta-de-lança, ou mesmo de um rigoroso esquema táctico. Não. É mais complexo do que isso. E simultaneamente mais simples. Falta atitude! Força de vontade! Benfica à Benfica! Ah! E um treinador com mais cabeça…já para não falar numa direcção com cojones, claro.
Mais disto em campo, no banco e nos escritórios e temos Benfica campeão in ontemvi-tenoestadiodaluz.blogspot.com
Acreditar, portanto, que o Benfica é campeão só porque leva nove pontos de avanço para o Porto a nove jornadas do final é ser – à falta de melhor expressão – “fofinho”. Triste, mas verdade. Este é o melhor período das últimas duas ou três décadas e não há títulos. Nada. Zero! Não é por acaso. Aliás, nada no futebol é por acaso. A não ser, claro, os golos anulados ao sportinguistas que, lá está, por simples acaso os vão afastando dos títulos.

Excepto talvez este ano. Pessoalmente não acredito em milagres. Futebolisticamente acredito em tudo. E dou mérito – muito, muito mérito – a um treinador que tem feito o melhor trabalho que o futebol português viu esta época: Leonardo Jardim. O madeirense é bom que se farta, mas não tem ainda a maturidade para levar de vencido este conjunto encarnado. Não vira, no entanto, a cara à luta e, passo a passo, lá vai conquistando os muito preciosos pontos de que o Sporting precisa. E o clube de Alvalade vai-se aguentando. Acredito que tal estado de felicidade seja precário, mas esta é uma resiliência que assusta e não saber admiti-lo é não saber ver futebol. Esse foi, na minha humilde opinião, um dos grandes problemas do ano passado (e do anterior a esse)…não tínhamos competição. Era “peaners”. Qual campeonato a feijões. Tanto que, no final, acabámos a fazer as contas aos feijões a que o segundo lugar tinha direito em três diferentes competições.

Mostra quem manda, Messias. Prova que o motivo pelo qual estás no Benfica mais um ano não é pelo medo de te ver sair para o Porto. Estás numa equipa de deuses, Jesus. E ao teu nome é hora de fazer jus. Precisamos de mais. Queremos mais. Merecemos mais! Não o conseguir é mergulhar num profundo mar de desilusão do qual ninguém será capaz de nos salvar. A responsabilidade, hoje mais do que nunca, é tua. E como dizia Lincoln, numa nação de Homens inspiradores só há duas opções: “viver para sempre ou morrer por suicídio”.

Pois vamos para o Olimpo juntos. Sem medos. O futuro é nosso. Mas há que lutar por isso. Mete-los a correr. A suar a camisola. A sofrer traumaticamente como nós nas bancadas sofremos. A chorar. A rir. A morrer de amores. A precisar disto como nós. Só assim não haverá desculpas. Porque, venha de lá o que vier, veio depois de meses e meses de paixão deixada em campo. Já vos vimos assim. E não pode ter sido fogo de vista.

A vida nem sempre nos dá destas oportunidades. Regozijemos. Este ano fomos ao Inferno e voltámos. Com o mesmo coração com que o fizemos respondamos, no final, à pergunta: “o que nos falta?”. Nada.

Artigo presente no sítio de desporto online

27 de fevereiro de 2014

Honda Civic Tourer: Final de semana em família

Domingo. Lá fora o sol brilha, ouvem-se os pássaros chilrear, enquanto os cães cumprimentam com latidos os joggers das redondezas. E estacionado junto ao passeio está o melhor pretexto para aproveitar o bom tempo e o final de semana.
A nova aposta da Honda para o segmento C já chegou a Portugal e promete fazer muitas famílias felizes. Com um preço base de 25 900 €, a “irmã mais nova” do Civic 5 Portas aterra no mercado com o look desportivo da família, mas com muitas mais soluções. Construída em território britânico, a Civic Tourer traz consigo o espaço que tornará qualquer Domingo num dia bem passado em família: 24 cm a mais dão direito a 624 litros de bagageira, o suficiente para transportar três malas de viagem. Em alternativa, e com os bancos rebatidos, o espaço cresce para 1668. Ainda que os “bancos mágicos” da Honda tornem o rebatimento numa tarefa simples, mais simples será ainda optar por colocar as tralhas no fundo falso que oferece mais 117 litros de volume à bagageira. Bagageira essa que tem uma cobertura retráctil, que encolhe com um simples toque, e um forro feito em material de fácil limpeza.

Vendida como a primeira carrinha do mundo a ser equipada com um sistema de suspensão traseira adaptável, a Civic Tourer dá-nos a possibilidade de seleccionar os modos Comfort, Normal ou Dynamic. Escolher a primeira opção dá direito a uma base mais macia para os amortecedores, enquanto escolher a última permite explorar melhor os limites do carro, ainda que seja uma diferença quase imperceptível. Até porque a carroçaria é trabalhada de forma a apresentar um centro de gravidade mais baixo, o que provoca um bom equilíbrio entre a dianteira e a traseira. Sai beneficiada a direcção, que ganha uma engenhosa capacidade de resposta nos troços com mais curvas. A alta velocidade – mas não muita, que o motor diesel 1.6 i-DTEC não corre para lá dos 195 km/h – percebe-se que a confiança é típica de um automóvel preparado para voos mais altos.

Debaixo do capô cabem duas possibilidades: ou o supracitado diesel 1.6 ou o 1.8 i-VTEC a gasolina. Em Portugal a Honda irá apostar em força no primeiro, sendo esse o mercado mais lucrativo. E já que falamos em números, importa ainda referir que a opção diesel oferece 120 cv e um binário de 300 N.m – com emissões de apenas 99 g/km, associadas a um consumo combinado de 3,8 litros aos 100 km. Para atingir estes valores, além do habitual sistema stop/start e de uma sexta relação de caixa longa, a Civic Tourer também conta com o sistema Econ, que avisa os condutores do modo de condução mais correto.

Como o divertimento em família só vem após a segurança, a Honda trouxe para o cockpit novos sistemas de condução. Do leque destaca-se o Sistema de Travagem Ativa em Cidade, especificamente concebido para ajudar a evitar ou a amenizar os acidentes a baixa velocidade; o Avisador de Saída de Faixa, que através de uma câmara multifunções deteta e avisa, através de um sinal sonoro, quando há uma saída de faixa sem a devida sinalização; o Sistema de Reconhecimento de Sinalização de Trânsito, que reconhece automaticamente os sinais e os apresenta junto ao velocímetro; e as Informações de Ângulo Morto e de Trânsito Lateral que previnem, através da utilização de radares, embates provocados pela existência de veículos no ângulo morto de visão do condutor.
Chega por fim a hora de se fazer à estrada com o seu amor e respetivos pequerruchos, mas não sem antes optar pela versão de equipamento que melhor vos satisfaz: Comfort, Sport, Lifestyle ou Executive – por ordem de luxos e apetrechamentos. A mais simples parte dos 25 900 €, enquanto a mais elaborada estaciona nos 31 000 €.
Artigo presente na edição de 26 de Fevereiro do semanário AutoSport

26 de fevereiro de 2014

Quando a História pesa

Já chega. Dói demasiado. Se é este o preço a pagar pelo sucesso então que vivamos na inviabilidade de nos concretizarmos e de concretizarmos os nossos sonhos. No espaço de um mês chorámos a vida de duas lendas e enterrámos as suas mortes. Mas não esquecemos. Ainda vivem. Aqui, nestes corações que de sangue (encarnado) palpitam e que não sabem como despedir-se. Porque com eles aprendemos a saltar de alegria e não a murchar de tristeza.

Mário Esteves Coluna. O segundo a despedir-se. Nascido em Moçambique, o “Capitão” leva consigo mais alguns dos melhores anos da história benfiquista. E muitas histórias que nunca conheceremos. Afinal, e como cantava Rui Veloso, é mesmo verdade que quando morremos triplicamos a nossa fama. Isso e a atenção que nos dispensam. Ganhamos um outro estatuto. É triste, mas é a vida. Ou a morte. No entanto, nunca ninguém poderá acusar o Benfica e os benfiquistas de não celebrarem em vida as vidas que nos fizeram viver. Viver o futebol. Viver o desporto. Viver o amor de uma vida. Viver o que não se vive. Sente-se.

Sentamo-nos nós agora, a chorar esta solidão acompanhada, com medrosas ganas de um futuro que havemos de construir mas já sem os nossos profetas por perto. Porque a vida é isto e porque isto é a vida. A vida que é seguir em frente, sem esquecer o que lá ficou atrás. E lá atrás ficou um homem que durante 78 anos respirou e viveu futebol. Uma estrela como poucas. Daquelas que tem a sua própria luz. Daquelas que faz as outras estrelas mais pequeninas e singelas brilharem também. Talvez por isso tenha sido sempre o “Senhor Coluna”. Talvez por isso os outros nunca tenham passado de meninos. Não por faltosa modéstia, mas porque um pai é sempre um pai e pai que é pai ensina. Ajuda-nos a levantar. Mostra-nos o caminho. Põe-nos a mão na cabeça e diz, depois de uma impossível corrida com fecho de golo, “parabéns, pequeno. O futuro é teu e está aqui. Eu nunca deixei de acreditar”.
Cesare Maldini e Mário Coluna, em Wembley, na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus in benficadojota.blogspot.com
Imagino-o a dizer estas palavras ao Eusébio. Ao Simões. Ao José Augusto. Ao Raúl Águas. O puto que conheceu Coluna com apenas 17 anos e que, desde então, nunca mais esqueceu a força única de um homem que nem Eusébio conseguia ofuscar. E o Pantera Negra nem almejava a tal desrespeito. Porque este homem era o Benfica. Este homem modelava o que o Benfica era. Delineava todas as aventuras e desventuras pelas quais o clube passava. E a prova disso foram os 677 encontros disputados ao longo dos 16 anos em que representou o Maior-de-Portugal.

Estreou-se no dia 5 de Setembro de 1954 e nos primeiros tempos, ao serviço de Otto Glória, foi para a frente de ataque. Pouco se demorou a perceber que o génio e a responsabilidade deste “Monstro Sagrado” – como foi apelidado por Artur Agostinho – exigia um lugar não de finalização, mas de organização. Tornou-se o mestre do meio-campo português e os dez Campeonatos e as sete Taças de Portugal provam e comprovam isso mesmo. Na Europa foi ainda um dos maiores protagonistas dos dois grandes sucessos europeus do Benfica, tendo marcado golos de sonho ao Barcelona, em ’61, e ao Real Madrid, em ’62.

Dizemos-te adeus, campeão. Ou até sempre. E com uma certa esperança intranquila e injustificada cremos, com todo este coração partido dos muitos trambolhões do nosso Benfica, que, de aí de cima, continues a olhar por nós como só tu soubeste fazer ao longo de décadas e décadas. Dentro das quatro linhas ou fora delas. Fá-lo por nós. Por ti, este será o trigésimo terceiro campeonato encarnado. E o resto é história.

Obrigado por fazeres parte da nossa.
O “Monstro” de joelhos. Hoje ficamos nós. Por ti in colunadaguiasgloriosas.blogspot.com

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25 de fevereiro de 2014

Benfica 1-0 V. Guimarães: O Harry Potter de Leste voltou a fazer das suas

Portugal parou, com o coração nas mãos, para ver o que é que o Benfica fazia. O princípio do 33º campeonato começava – ou não – a desenhar-se aqui. Nesta noite. Neste jogo. Com um Sporting em começo de quebra e um Porto a rebentar pelas costuras. O futuro a quem pertence. A quem o reclama. E este tem de ser nosso. Benfica à Benfica precisa-se.

Não foi o que se viu. Um amor tímido, aquele que a equipa partilhou com os adeptos. Havia medo de perder. De não ser correspondido. De agarrar com unhas e dentes aquilo que é nosso por direito. Porquê? Somos melhores. Ninguém chega para nós. Mas há que mostrá-lo em campo. Olho por olho, dente por dente – como cantava Zeca Afonso. Com o onze do costume salpicado por algumas alterações e ausências, Jesus levava a jogo um Sílvio à direita, um Jardel ao centro e um Sulejmani à esquerda. E, surpresa das surpresas, tudo isso falhou. Mas há mais.

Num jogo em que o Benfica entrou a alto ritmo, com uma oportunidade claríssima de golo para Rodrigo logo aos dois minutos, nada fazia prever que a equipa da casa precisasse de magia para sobreviver. Uma cabeçada entre Pérez e Jardel aos cinco minutos veio matar o ímpeto encarnado e, a partir daí, foi o jogo possível. O central brasileiro não é propriamente acarinhado pela boa sorte, mas hoje tudo lhe aconteceu. Abriu a cabeça, as ligaduras não ficavam no lugar, foi obrigado a jogar com uma touca, meteu o avançado do Guimarães por duas vezes em jogo, protegeu bolas que não saíram e ainda resolveu fintar em zona proibida. Tanto quis mostrar serviço que acabou a servir…de passador.
D. Afonso Henriques...? in Facebook do SL Benfica
Passo a passo – literalmente (!) – o Benfica lá ia tentando furar por aquela que foi a melhor defesa a jogar na Luz este ano. Rui Vitória não se fez de rogado e só não levou um ponto para casa porque o Benfica tem de ser campeão. E o que tem de ser tem muita força. Ainda assim, o Guimarães deixou em campo blood, sweat and tears e teve em dois elementos os engenheiros que, tijolo por tijolo, construíram a barreira táctica que havia de desesperar mundos e fundos nas bancadas e em casa: Crivellaro é rei do meio-campo vimaranese e um guerreiro à moda antiga. O centro do campo foi dele e até Enzo e Fejsa precisaram de uma ajudinha extra – serventia de Rodrigo ou Lima; à esquerda um conhecido Leonel Olímpio que ia galgando por ali fora até despejar bola em Maazou, o pivô que também merece destaque pelo trabalho que deu à defensiva da casa. Com estas e outras diabruras o Guimarães lá se foi aguentando, sempre com dois homens junto ao detentor da bola, alas fechadas e um centro de campo de meter medo. Jogo de vai ou racha, portanto.

E o Benfica, pela varinha encantada de Markovic, lá foi e rachou. Depois de alguns sustos junto à (bem protegida) baliza de Douglas, o sérvio lá conseguiu – à terceira fantástica tentativa – tirar um coelho do chapéu…com um chapéu ao guarda-redes do Guimarães. Golo da noite, da jornada, da época e da vida do sérvio, se não contarmos com a maldade perpetrada no Estádio José Alvalade. Rodrigo, num dos poucos lances em que esteve bem, recebe a bola, roda sobre si próprio e com pózinhos de perlimpimpim faz a assistência que, a cinco minutos do intervalo, complicava as contas a Rui Vitória. Valha-nos o feiticeiro.

A partir daí veio mais do mesmo. Um Benfica desligado, podre, nauseabundo e que não mostrava amor à camisola. Do banco avistavam-se soluções, mas o mister é Jorge Jesus e não eu. Não me entendam mal: ele é que manda, sim, mas eu é que percebo do assunto. E passei o jogo inteiro a dizer que o Enzo estava em “dia não” e que o Fejsa, assim, não dava nem para a elementar distribuição de cacetada. Rúben Amorim, senhores. O jogo clamava pelo português, raios! Não houve meio até à entrada do homem. Até aos 84 minutos! E não há milagres, Jesus. Só magia. E foi a magia vinda do Leste que te safou.
Um golo de se lhe tirar o chapéu in jornalacores9.net
A Figura
Markovic – Palavras para quê? Nasceu ensinado e saiu de lá de dentro a dar toques. É estonteante. Dá até vontade de o vender por mais de 25 milhões, só para variar um bocado.

O Fora-de-Jogo
Público da Luz – Não tivessem os bilhetes sido oferecidos e estava a noite estragada. Onde anda o Benfiquismo desta gente? Fica a nota: a energia gasta no maldizer também serve para as palmas e para os cânticos. Esta equipa, independentemente do que deixa ou não em campo, merece melhores adeptos.

P.S. – Parabéns a Luisão pelo 400º. Já não se vêem destas coisas no futebol. E muita força ao nosso Mário “Capitão” Coluna. Estamos a torcer por melhores notícias.

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18 de fevereiro de 2014

Sentido de humor precisa-se

Ontem à tarde, enquanto o Benfica defrontava o Paços de Ferreira, tive a felicidade de ver no stream pelo qual acompanhava o jogo aquele que seria o mote para a minha crónica de hoje. Atrás de Jorge Jesus, e junto ao banco do Benfica, lá estava, mais uma vez, o “bitaite” em folha A4 dirigido ao treinador encarnado. Desta vez lia-se – sempre em letras garrafais, claro – «JESUS, põe o MANEL a jogar». Escangalhei-me a rir mais uma vez. E ainda bem. Porque independentemente de o Benfica estar a fazer uma das piores primeiras partes desde o jogo com o Arouca, eu soube manter o meu sentido de humor intacto. Acreditem…não é fácil.
Pastilhas, caipirinhas e desta vez um pedido especial. Jesus já viu de tudo in facebook.com/c.oculta
Não é fácil, acima de tudo, para os adeptos que bêbedos em cegueira invadem os espaços de opinião, ou de notícia, ressabiados com as inúmeras “injustiças” que se atravessam no caminho do seu clube. Gente que vê maldade na arbitragem. No tipo que está sentado a seu lado a torcer pelo clube rival. No desgraçado do apanha-bolas que ainda nem idade tem para votar, mas que cheio de livre-arbítrio lá queima uns segundinhos na (não) ajuda à reposição. Levantam-se e vociferam. Quer seja no estádio. Ou em casa. Ao pé da mulher. Ao pé do marido. Mesmo ao pé dos filhos. Palavrão para aqui, palavrão para acolá…porque é o “sistema”. É o “compadrio”. É a “corrupção”. É “os de sempre”. É o “ridículo”. É a “roubalheira à descarada e sem propósitos”. É a “fruta”. É o “café com leite”. Mas ainda há alguém que veja futebol neste país?

Acredito – e espero – que sim. Eu faço por ver. E faço por me rir. É que «não há desgraça que não tenha a sua graça», como escreveu uma vez Miguel Esteves Cardoso. Aconselho portanto todos os protagonistas a esboçarem um sorriso quando o árbitro anula (mal) um golo à sua equipa de coração. Quando um cronista da equipa rival aproveita uma péssima exibição para fazer pouco do nome da instituição que tanto amam. Ou mesmo quando têm o Campeonato, a Taça de Portugal e a Liga Europa na mão e, a segundos do fim, vêem tudo a ir pelo cano abaixo. Primeiro, esse sorriso – nem que seja amarelo. E depois chorem. Chorem tudo o que tiverem a chorar. Amaldiçoem e roguem pragas aos sete ventos. Vociferem palavrões até o sol nascer. Arranquem os cabelos pela raiz. Mas tenham, pelo amor do Deus do Futebol, a decência de guardar para vocês mesmos a raiva e a mágoa que vos enche a alma e o coração. Porque…ninguém quer saber.
A imagem mais triste que vi em 22 anos de Benfiquismo in geracaobenfica.blogspot.com
E essa é a difícil e triste realidade do adepto de futebol. Quando se sofre, sofre-se sozinho. Não se podem marcar consultas no psicólogo mais próximo para lidar com os sete que o Benfica engoliu a seco, em Vigo. Não se vão comprar antidepressivos para superar o facto de a nossa equipa não vencer na casa do rival desde Janeiro de 2006. E que nem nos passe pela cabeça convidar um amigo para jantar para falar do péssimo treinador que o nosso presidente resolveu contratar com uma confiança cega.

Mergulha-se assim numa espiral recessiva de angústia e ansiedade. Porque à nossa volta há milhões como nós, mas ninguém que nos ouça. A dor é nossa. Ninguém sofre como nós. Mas até no sofrer tem de haver uma certa dignidade. E o mesmo se aplica ao amor e à dedicação. Eu que o diga. Eu que amo um clube que nasceu numa farmácia. Eu que todas as semanas grito por um clube que diz ter nascido em 1904, mas que só se tornou naquilo que realmente é em 1908. Eu que vou ao estádio berrar com lágrimas nos olhos um hino no qual me intitulo de “papoila saltitante”. Eu que tenho como irmãos milhões de adeptos conhecidos por gostarem de couratos, terem bigode até aos joelhos e baterem na mulher quando a águia voa mais baixo. Eu que tive um presidente corrupto que ainda hoje está fugido lá para as Inglaterras. Eu que tenho como Rei omnipresente o homem que via no tremoço o melhor marisco do mundo. Eu que torço por uma equipa que consegue jogar durante semanas sem portugueses no onze inicial. Eu que apoio um treinador que não consegue conjugar uma frase em português correcto para salvar a própria vida. Eu que me lembro de ganhar dois campeonatos desde que sou nascido. Eu que não ganhava ao Porto à grande e à francesa desde sei lá quando.

Mesmo assim…rio-me. Divirto-me. Sou feliz. Não enveneno os outros com as minhas derrotas e os meus pesares. Não me sinto ridículo. Sinto-me o que sou. E sou benfiquista. Para o bem e para o mal. Em qualquer que seja o contexto, sofro sozinho. Não preciso que ninguém sofra por mim.

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28 de janeiro de 2014

A arte de bem especular

Janeiro está a chegar ao fim e já lá vão dois tiros no porta-aviões. Ola John foi, puxado por uma orelha, para o Hamburgo. E assim se perdeu uma das peças mais importantes do Benfica na recta final do ano passado. Não satisfeitos, lá foi também o desgraçado do sérvio. Matic, o «melhor médio defensivo do mundo», segundo Jorge Jesus. Chelsea dá e Chelsea tira. O dinheiro não é problema…pelo menos para os lados de Londres. Já em Lisboa a corneta apita de outra forma. E o regimento marcha com uma mão à frente e outra atrás.

Luís Filipe Vieira diria, neste momento, algo como «mas mais vale marchar do que morrer!». Tudo bem. Eu diria, contudo, que mais vale ter quem meter a marchar do que metê-los a marchar daqui para fora – perdoem as redundantes metáforas. Gastaste o que havia e o que não havia para gastar. Agora? Agora o nosso meio-campo, ainda que seja o melhor em Portugal, está ao abandono. A um nível tal que ver os últimos jogos disputados na Luz naquele relvado era como ver o (não) desenvolvimento da agricultura portuguesa no pós-Política Agrícola Comum. Um enorme batatal, mas batateiros e batatas nem vê-los. “Deixe lá, Sr. Ministro. A gente manda vir de Espanha. Ou de França”. “Mas não fica mais caro?”. “Fica”. “E não tem menos qualidade?”. “Claro”. “E não estamos a matar a nossa mecânica produtiva?”. “Sim”. “Vamos a isso então!”. Que bom é ser-se português. Tanto na política, como no futebol.

E de portugueses falemos. Mais precisamente de André Gomes. O jovem de 20 anos foi – e esta aqui não deixa de me fazer rir – “comprado” pelo empresário Jorge Mendes. O homem que também representa os célebres Cristiano Ronaldo e José Mourinho parece ter encontrado num dos futuros projectos benfiquistas…um futuro jogador para o futebol não-português. Mais precisamente para o futebol inglês. Gomes viu o seu nome associado ao Liverpool, este domingo, pelo jornal The Sunday Times. Mas já dizia Ricardo Araújo Pereira na interpretação de uma das suas maiores personagens: «Falam, falam, pá, e eu não os vejo a fazer nada! Fico chateado, com certeza que fico chateado, pá!». É que isto de “falar” em coisas é sempre interessante, mas é preciso saber fazer disso profissão. É preciso saber fazer disso arte. Aí, não há ninguém melhor do que os jornalistas. Do que a comunicação social. Mas mesmo esses têm falhas. Vejamos porquê.
“Eu já fui. E tu?” in zerozero.pt
A tal notícia que associa André Gomes ao Liverpool, e que todos os grandes desportivos nacionais usaram para encher papel hoje, explica que só há interesse no médio benfiquista porque Gerrard e Lucas estão no estaleiro. Ah, e como se não bastasse, quem ilustra o artigo é o André…mas o Almeida. Poético. O mais bonito é que ainda se fala num outro possível interesse, desta feita por parte do Manchester City. Agora pergunto eu: mas alguém se lembra que em Junho André Gomes estava referenciado pelo Chelsea? Quem é que acabou por ir para lá preencher o meio-campo? Pois.

Fica aqui a prova provada de que o Benfica tem a corda na garganta. De que a sarna é muita, mas as notas para a coçar já há muito que trocaram de mãos. De que o Benfica não tem problemas em especular para valorizar e meter os seus jogadores nas bocas do mundo. E que um empresário faz e fará sempre aquilo que um empresário tem de fazer: jogar com tudo o que o rodeia para fazer dinheiro. Para quê? Para fazer ainda mais dinheiro. Mas não tem mal. Não precisamos de André Gomes, de qualquer forma. Enzo, Fejsa e Amorim chegam e sobram. Se algum partir as duas pernas, Gaitán também dá para o meio. Em último caso espeta-se lá com Markovic (finalmente!). Com certeza que nenhum dos dois últimos será necessário para jogar nas alas até porque são muitas as opções que temos. Como Salvio, por exemplo. Ou Ola John, de quem falávamos há pouco. Acima de tudo, não queremos é dar cabo da carreira a um puto que até tem o que é preciso para vingar. Sim, vamos vendê-lo até dia 31 de Janeiro por mais de 15 milhões de euros – valor pago por Jorge Mendes. Senão, não tem mal. Fica para o final da época.

E se eu disser que nem agora, nem nessa altura? É a arte de bem especular. Ou não.

Artigo presente no sítio de desporto online

22 de janeiro de 2014

No meio está...a dúvida

15 de Janeiro de 2014. Nemanja Matic enche as capas dos jornais com o seu novo sorriso “à Chelsea”, e os olhos dos benfiquistas de lágrimas ainda malsofridas. O sérvio partiu. E com ele partiram as capacidades técnicas que fizeram sair da boca de Jorge Jesus o pior suspiro inconformado que um benfiquista poderia ouvir: «perdemos o melhor médio defensivo do mundo». Paz às suas chuteiras. Só faz falta quem cá está...que é o que se diz quando nos partiram o coração e nos tentamos fazer de fortes.

E fortes temos de nos manter, provando que nada nos serve de temor, a não ser nós mesmos e os tropeções que, época após época, repetimos. Quais crianças que não aprendem a apertar os atacadores dos ténis já gastos. Com a saída de Matic ficou um assunto para resolver: quem ocupará o lugar de pivot defensivo no eixo central do nosso mágico meio-campo? Há duas hipóteses. Ou Rúben Amorim ou Ljubomir Fejsa. Vamos conhecê-los.

O número 6 do Benfica in Site Oficial do Benfica
Comecemos pelo português: 29 anos – que completará daqui a seis dias –, 1,78 metros e 74 quilos. Começou a sua carreira sénior no Belenenses, decorria o ano de 2003, tendo apenas participado em dois jogos nessa mesma época. Lá ficou até 2008, ano em que os azuis do norte conseguiram o primeiro lugar e os azuis de Belém o oitavo. O clube que se seguiu é o mesmo de hoje: o Sport Lisboa e Benfica, num negócio que terá custado um milhão de euros aos encarnados por apenas 75% do passe do português. Na primeira época, ao serviço de Quique Flores, Rúben Amorim fez 35 jogos, num total de 44 – tendo sido titular em 31 deles –, e marcou dois golos. Na época seguinte aparece Jorge Jesus e o Benfica é campeão. Amorim figura em 38 jogos, num total de 51 – tendo sido titular em 24 deles – e passa, de uma época para a outra, do lugar de quinto jogador mais utilizado do plantel para o décimo. E no ano seguinte é quando a carreira do lisboeta se “desmorona” ao abandonar o Benfica debaixo de um clima de enorme tensão, tendo sido alvo de um processo disciplinar depois de, alegadamente, se ter recusado a participar no treino seguinte à goleada sobre o Rio Ave (5-1). A 30 de Janeiro, no penúltimo dia do mercado de transferências, assina pelo Sporting de Braga por época e meia, a título de empréstimo, e, já lá, chega mesmo a afirmar que lhe parece «óbvio» que enquanto Jesus treinar os encarnados não pode voltar: «Agora estou no Braga e estou muito feliz. Foi a melhor opção que podia tomar na minha carreira». Coincidência ou não, o português volta às boas exibições e ao tal lugar de quinto jogador mais utilizado do plantel…mas arsenalista. Faz cinco golos em 36 jogos e ajuda os bracarenses a chegarem a um sensaborão quarto lugar. Acaba a temporada e volta, como que de castigo, ao clube da Luz para cumprir o último ano de contrato.

Desde que chegou, temos visto um meio-campista lutador, mas desacreditado. As lesões não têm ajudado. A primeira, na vitória frente ao Paços de Ferreira por 3-1, no dia 14 de Setembro. A segunda, na vitória frente ao Sporting por 4-3, no dia 9 de Novembro. Praticamente dois meses as separam e, em ambas, a paragem foi de um mês. Mas nem só de espinhos são feitas as rosas e a verdade é que, das poucas vezes que pôde alinhar de início, Amorim demonstrou que tem em si o que é preciso para popular o meio-campo do Benfica e assegurar que as costas de Enzo podem permanecer voltadas para Oblak – ou Artur. Fez um jogo soberbo contra o Olympiacos. Fez um jogo fulcral contra o Sporting. Mandou no meio-campo contra o Leixões. A pergunta é simples: se um jogador corresponde quando lhe dão espaço e mostra que a idade tem servido para amadurecer e compreender e proteger o centro do meio-campo como um atleta de gabarito...porque é que é necessário manter a média de entrada em campo no minuto 70? Porque jogava Matic. Pronto, tudo bem. Boa resposta. E agora? Qual é a desculpa para não jogarmos com um português – com todas as capacidades para ir ao Mundial – como titular?

O sérvio número 5 dos encarnados in Site Oficial do Benfica
A desculpa poderá ser Ljubomir Fejsa. Sérvio, 25 anos, 1,84 metros e 75 quilos. Com uma história futebolística bem menor (e marcante) do que a do português, este recém-chegado deu os primeiros passos no Hajduk Kula, clube sérvio, onde ficou até ao ano de 2008. Ainda no mesmo ano mudou-se para o famoso Partizan de Belgrado, onde jogou durante três épocas, somando um total de 69 jogos e dois golos. De assinalar que na última temporada ao serviço dos sérvios não há registo que prove que tenha feito mais do que duas exibições (!). No entanto, as suas capacidades de preenchimento de espaços e leitura de jogo cedo o evidenciaram. O Olympiacos estava bem acordado para o possível potencial deste jovem e na época de 2011/2012 o treinador Ernesto Valverde comprou-o e colocou-o à prova em quase todos os jogos possíveis…até final de Novembro, quando Fejsa contraiu uma lesão grave, que o afastou dos relvados até final da época. Na temporada seguinte chega o português Leonardo Jardim e ​​Fejsa passa a ocupar um lugar importante...no banco. Não participa em quase nenhum jogo até 12 de Janeiro, data que assinala o último encontro do madeirense como treinador do clube grego. A partir daí, o sérvio volta a ter direito à palavra e sobe claramente de nível participando como titular em metade dos restantes jogos que faltavam até final do ano futebolístico. No ano seguinte ainda disputou o primeiro jogo da liga grega antes de entrar no avião para Lisboa, num negócio avaliado em quatro milhões e meio de euros.

Desde que chegou, já lá vão 15 jogos, num total de 29 – tendo sido titular em 13 deles –, e algumas exibições marcantes, como seja o jogo de estreia pelo Benfica na Champions, contra o Anderlecht. Deu 2-0. Postas que estão as cartas em cima da mesa, é agora fácil perceber que talvez estes dois senhores até nem tenham perfis assim tão diferentes. E dentro de campo isso vai-se percebendo. A nível físico talvez Fejsa tenha alguma vantagem, mas no que toca ao conhecimento da equipa e do jogo por ela orquestrado, Amorim é uma mais-valia todos os dias da semana. O sérvio é mais novo e tem a experiência de dois campeonatos, mas o português tem a seu favor os dissabores das rejeições que ultrapassou com boas exibições e alguns golos. O recém-chegado manda mais nas costas do meio-campo, mas o português é o exemplo perfeito do meio-campista multidisciplinado e pluralista que o Benfica normalmente utiliza em campo. No que à garra diz respeito, venha o diabo e escolha. Ora pois, qual é, finalmente, o factor de desempate? Jorge Jesus...se é que me faço entender.

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13 de janeiro de 2014

Especial Clássico: Benfica 2-0 FC Porto

Era tarde de emoções fortes e ninguém o negava. Os benfiquistas responderam à chamada que Eusébio involuntariamente deixou e quiseram estar presentes naquele que seria, teoricamente, e até ao momento, o jogo mais difícil do campeonato…também ele a encerrar a primeira parte do mesmo. Igualdade pontual no pódio com os três grandes a mostrarem como se dá de comer (bom futebol) ao povo português, se bem que pelas 16h00 de Domingo já o Sporting tinha empatado na Amoreira e tremia com a possibilidade de ver um dos seus dois adversários directos distanciar-se. O que veio mesmo a acontecer.

O Benfica abriu as portas a uns 63 mil espectadores – naquela que foi, de longe, a melhor assistência do ano – e preparou coreografia, homenagem, minuto de silêncio, vídeo…tudo para lembrar e relembrar o Rei que partiu há ainda menos de uma semana. Estar no estádio – e posso afirmá-lo sem precedentes porque fui um dos privilegiados – foi como ir ao céu e voltar. Poucas coisas sabem assim, daquela maneira única que todas e nenhumas palavras servem para explicar. Arrepiante.

Apito inicial e a equipa da casa a querer ir para cima do adversário. Mais bola, mais atrevimento e o lado esquerdo a funcionar on wheels, proporcionando alguns sustos a Paulo Fonseca e seus pupilos. Mas cedo o FC Porto se recusou a abandonar o jogo e guardou para si a bola. Ainda só íamos com dez minutos de jogo e já se percebia que as bancadas queriam ver mais Benfica, ou o mais normal seria voltar aos tempos em que nem pintados de ouro os jogadores de encarnado conseguiam vencer o clube nortenho. Nem de propósito e sem muitos o conseguirem prever, Rodriguito, numa perfeita e oportuna homenagem ao Pantera Negra, faz o primeiro da noite: um remate vistoso e indefensável pela esquerda, ao minuto 13…o mesmo número que Eusébio envergou ao serviço da Selecção Nacional no Mundial de 66. Respira fundo, Jesus. Ficou mais fácil.
Em tarde de homenagem a Eusébio, Rodrigo abriu o caminho para o triunfo in Lusa
Sabemos é que, quando fica mais fácil para o Benfica, abre-se lugar ao disparate. Ora, sem tirar nem pôr: os azuis e brancos foram ganhando espaço e mais espaço e quando se dava por eles estavam em cima da área encarnada a tentar bombear bolas para a baliza de um Oblak que entrou em campo como o terceiro mais novo guarda-redes de sempre a enfrentar o FC Porto no eterno clássico. Com uma exibição segura e sem grandes preocupações, o jovem alcançou perante o rival nortenho o sexto jogo consecutivo sem sofrer golos tornando-se no melhor guarda-redes estreante da história do clube. Com ou sem coincidências, a defesa do Benfica mostrou-se também ela segura – ainda que com linhas muito baixas – e assim fomos para intervalo. O FC Porto não era preciso, mas estava mais forte.

Voltou-se para aquela que seria uma segunda parte sem muita história. O Benfica entrou pesado e sem vontade de ver o seu adversário jogar e as bancadas deliciaram-se com o festim de bola que iam vendo. Passes acertados, iniciativas de se lhe tirar o chapéu, espaço para chegar ao meio e uma defesa irrepreensível. Ia-se notando, por esta hora, a importância de Matic e Enzo neste esquema habitual, e depois a importância de Maxi e Siqueira na quebra das laterais do FC Porto. Como se não bastasse, os centrais ainda subiam e, numa dessas ocasiões, Garay – de canto – meteu a cabeça à bola e bateu um Helton pouco inspirado e relativamente nervoso. Estava feito o segundo da noite e nem a entrada de Quaresma serviria para pôr água na tépida fervura que era o jogo de Paulo Fonseca. Foi um jogo bonito e simples, muito disputado, mas que teve um justo vencedor: o que realmente venceu.

A assinalar ainda que Artur Soares Dias tem falhas relativamente estranhas e critérios que deixam um pouco a desejar. Entra em campo com o objectivo de não amarelar desnecessariamente os jogadores de ambos os conjuntos, mas consegue – já na segunda parte – atribuir cinco cartolinas em menos de dez minutos. A isto junte-se uma mão de Mangala na área que o juiz da partida não conseguiu ver – minuto 52 – e um “chega-para-lá” perfeitamente escusado de Garay sobre Quaresma que poderia ter valido grande penalidade para os azuis e brancos – minuto 80. Vale a pena deixar bem explícito que não foi um jogo propriamente fácil para o árbitro que, para além de ter 63 mil pessoas à sua volta, teve ainda de lidar com a agressividade excessiva dos jogadores do FC Porto na primeira parte…tendo essa mesma agressividade sido retribuída em alguns poucos lances por parte dos jogadores do Benfica.

Campeões de Inverno. “Só” falta o resto.
Rodrigo e Garay foram os autores dos golos na vitória encarnada in Lusa
Classificação dos Jogadores:

Oblak (9) – Tudo o que havia para fazer, ficou feito. Com segurança e determinação. E não precisa de mais do que 21 anos de vida e outros tantos de treino e experiência para provar que tem pela frente uma brilhante carreira.

Garay (7) – Não se pode exigir perfeição a nenhum ser humano, mas quando se é realmente perfeito exige-se que tal dom se mantenha, propague e exalte dia após dia ou, neste caso, jogo após jogo. Ora, se Garay é perfeito…para quê uma ou outra entrada fora de tempo e plena de agressividade? Quaresma tem razão de queixa.

Luisão (7) – Em dia de homenagem ao Rei, o rei da defesa encarnada puxou da coroa, ocupou o habitual trono e, ainda que o turbo de Jackson tenha em alguns momentos metido medo, o brasileiro não se deixou ofuscar. Fácil.

Maxi (8) – Portentoso. E pouco mais há a dizer. Tirando o facto de ter feito o jogo da época e de ter estado bem ao ponto de lembrar os anos em que (nos) deslumbrou. “El Cantiflas” ainda terá jogo em si?

Siqueira (7) – Não sou apreciador do estilo, revejo nele inúmeras falhas que ocuparam o lado esquerdo da nossa defesa desde a saída de Coentrão, mas não posso deixar de tirar o chapéu a esta bem conseguida exibição. Forte fisicamente e com a capacidade para anular completamente Varela e não se deixar assustar pelas arrancadas do recém-chegado Quaresma.

Matic (8) – Dá vontade de lhe comprar um estádio e uma bola e pagar bilhete só para ver o raio do homem jogar e deslumbrar sozinho. Só falhou no minuto 10 quando Helton ofereceu uma prendinha de Natal atrasada e o passe não lhe saiu bem. De resto? Não só mandou no meio-campo encarnado, como no azul. Vai deixar saudades...

Enzo Pérez (6) – Consistente e presente. É uma luz que na Luz (e fora dela) não se apaga. Só que não tão brilhante como em outras alturas.

Gaitán (7) – Desengata sempre e em qualquer situação. Faz lembrar aquele amigo que todos nós temos que é sempre capaz de meter o carro a pegar. Dá uma confiança tenebrosa ao ataque do Benfica e isso viu-se num lado esquerdo sempre muito criativo e maroto.

Lima (5) – Continua à procura do seu espaço na equipa. Ninguém esquece as suas capacidades nem o que deu ao Benfica numa só época. Mas pede-se mais. E ele é capaz.

Rodrigo (8) – Desbloqueou o jogo e quebrou o medo. Funcionou não como timoneiro – papel mais natural -, mas sim como farol. Aguentou o ataque com a classe de um jogador que já faz isto há muitos, muitos anos. Não é o caso. Mas parece.

Jardel (-) – Registei uma intervenção poderosa, mas nada mais.

Rúben Amorim (-) - Sem tempo para mostrar serviço.

Melhor em Campo: Markovic (9) – Brilhou de forma curiosa, tal como as estrelas mais bonitas o fazem no céu: nem sempre de forma consistente e escondendo-se por uma ou outra vez. Mas ainda assim capazes de nos alegrar e embelezar a noite. Ou, neste preciso caso, o final de tarde. É um caso a ter em conta. Arrancada pela esquerda, arrancada pelo meio. Passe aqui, passe acolá. Luta pelo chão, luta pelo ar. Foi pau para toda a obra e, ainda que tenha caído a meio da segunda parte, merece o prémio de jogador do clássico. É para manter.

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7 de janeiro de 2014

«Tu és o nosso Rei, Eusébio. Descansa eternamente»

Os “Rapazes Sem Nome” saíram à rua para um último tributo em morte, depois de muitos em vida. Com eles saiu tal cântico. Das suas bocas. Projectado entre punhos desvairados, cachecóis encarnados em reboliço e bandeiras de face voltada a um vento que soprava com uma alegre tristeza. Saíram também os adeptos. Os sócios. Os doentes. Os loucos. Uns velhos. Outros novos. Uns ricos. Outros pobres. De encarnado. De verde. E de azul. Uns de sorriso amarelo nos lábios. Outros de lágrimas logo enxutas e ainda por derramar. Percebeu-se que era a sério quando alguns as derramaram.

Percebeu-se que não havia volta a dar quando a voz do Malheiro ficou ainda mais grave. Percebeu-se que era tarde demais quando o próprio Toni não o desmentiu. Percebeu-se que já não havia nada a perceber quando o próprio Benfica o anunciou, começando os preparativos e abrindo as portas para o seu povo – que ontem e hoje foi o povo português, e até o povo mundial.
Perder Eusébio foi como perder parte de Portugal in SAPO
Ainda agora parece mentira, enquanto a chuva vai batendo lá fora. Tudo tão rápido, tudo a querer fugir-nos por entre as mãos, da mesma forma que a vida lhe fugiu por entre um sorriso malandro e de orelha a orelha – assim gosto de imaginar, para que não doa tanto. Mas terá doído? O que resta de sofrimento quando o Deus de que falamos viveu tudo o que havia para viver? Tendo-o feito, ainda para mais, como as crianças o fazem: da forma mais verdadeira, pura, simples e alegre que lhe(s) é possível. Assim foi. Assim está. Assim nos despedimos, ontem e hoje, da figura que marcou o desporto nacional. E os nossos corações.

Lembrar Eusébio é lembrar muito mais do que um jogador da bola. Percebo isso, finalmente. Eu, que amo celebrar o futebol, mas que odeio tudo o que se vive fora de campo. Hoje percebo. Percebo que levar pela mão este homem até à sua última morada é quase tão magnífico, único e necessário como levar o nosso filho ao seu primeiro jogo num estádio. É a celebração de uma vida. O celebrar da nossa vivência térrea. O “obrigado” a tudo o que é do coração e que o coração nos faz ver e viver com olhos turvos de tantas que são as lágrimas que os invadem. Parar uma cidade só para dizer adeus foi pouco. Dever-se-ia ter parado o mundo. País a país, cidade a cidade, casa a casa. Porquê? Porque morreu o último símbolo que era na realidade…um homem real.
A estátua feita em vida foi o palco para a despedida em morte in TVI 24
Eusébio da Silva Ferreira representa o meu pai – ainda que este malandro que tanto amo seja lagarto. A minha mãe – com menos bigode, felizmente. O meu querido avô materno – que não procurou sucesso no futebol, mas na tipografia. E mesmo a minha avó materna – ainda que esta não consiga chutar uma bola nem para salvar a própria vida. Porque Eusébio foi e é igual a eles. Um dos que se levantou todos os dias às sete da matina para passar o dia a treinar. Sem promessas de futuro. Sem poder descansar. Sem poder acreditar que a sua vida profissional poder-se-ia estender a algo mais do que Portugal. E depois de volta a casa. Dia após dia, após dia. Tudo isto com o acréscimo de ter deixado para trás o seu continente, o seu país e a sua família porque alguém lhe disse que ele haveria de vingar…em Portugal…e a jogar à bola. Não bastava portanto a este imigrante preto ter vindo para um país fascista que explorava colónias africanas – ou os pretos que lá viviam –, como teve ainda de acreditar irremediavelmente e com todo o seu coração que seria o antigamente-mal-pago-futebol o responsável por uma vida melhor. Por uma vida digna. Quantos de nós passamos ou passámos por isto? Acima de tudo: quantos de nós triunfaríamos nestas condições? Quantos abraçaríamos, com qualidade, honestidade e orgulho em todas as nossas acções, o selo de “Self-Made Man”?

Ele fê-lo. E fê-lo marcando uma geração. E a geração seguinte. E a depois dessa. E as que hão-de vir, acredito. O que o torna no Deus nacional e no Rei do Benfica foi acreditar. Somente acreditar. Acreditar como já há muitos anos não se acredita em coisa nenhuma ou em coisa qualquer neste País. Neste Mundo. E é acreditando que não se desiste. Eusébio foi o último de nós que, cheio de alegria, conquistou a sua e a de todos. Conquistou também uma Taça dos Campeões Europeus, onze Campeonatos Nacionais e cinco Taças de Portugal – tudo com a águia ao peito. Por ele, ela há-de voar novamente neste Domingo que se avizinha. Já ele, deu hoje a última volta ao estádio ao qual chamava “casa”. Nós? Nós despedimo-nos durante mais de 24 incessantes horas. Ao frio e à chuva. De noite, madrugada, manhã e tarde. Mas não custou. Não custou porque não foi propriamente uma despedida. É que os grandes nunca partem. E mesmo quando o fazem, fazem-no com uma jovialidade e elegância tais, que nós, meros mortais, pintamos durante o resto das nossas vidas os nossos sonhos com aquelas que foram as suas lutas e consequentes conquistas. Porque não há nada mais tocante e importante do que um ser humano que move multidões. Agora imaginem que esse ser humano “só” jogava à bola.

Agora vai lá descansar, Rei…se bem que eu acredito que sejas o único homem que até desse lado não vai desistir de viver. E de encantar, claro.
Obrigado, Rei. Até sempre in Público
Em post-scriptum deixo um obrigado emocionado a todos os sportinguistas e portistas que souberam solene e dignamente honrar a memória de um benfiquista de clube, mas português de coração. Agradeço ainda e especialmente a Bruno de Carvalho, pela presença no momento fúnebre, e a Pinto da Costa, pela mensagem sincera que publicou no site oficial do FC Porto.

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18 de dezembro de 2013

Menu Europa

PAOK. É essa a sigla pela qual responde o Panthessalonikeios Athlitikos Omilos Konstantinoupoliton. Não deixando que o supracitado e deliciosamente pronunciável nome nos distraia, é esse o adversário que será servido ao Benfica como appetizer nesta nova caminhada, de faca e garfo, pela Liga Europa. Falta saber se seremos capazes de, em semelhança ao ano passado, chamar “petisco” a todos os emblemas que pela frente nos forem aparecendo. Se dúvidas há, é porque as recentes exibições caseiras vão até agora sabendo a pouco – ou a fuckin’ shit, se formos o Gordon Ramsay e estivermos a falar dos confrontos contra Arouca e Olhanense.

Vale a pena reflectir sobre o que tem falhado? Ou é chover sobre o molhado? Cagar o babete com ainda mais lágrimas e ranho? Já não há serviço de limpeza que nos safe. Nem equipa de desratização que nos valha em tamanho desacerto. Porque quando os tachos, as frigideiras, as facas, os aventais e os serviços de mesa não mudam e o restaurante continua a servir “merdinha”…das duas, uma: ou vem a ASAE e dá a machadada final ou o dono tem o bom senso de não fazer mais ninguém passar a noite junto à sanita. Ou ainda, se quiserem incluir a instituição Sport Lisboa e Benfica na metáfora em causa, inventa-se uma terceira via que se limita a fechar os olhos a toda a matéria fecal que se vai produzindo, reproduzindo e arrastando em campo. Como se, mais tarde ou mais cedo, milhões de fine diners (aka adeptos encarnados espalhados pelo mundo fora) não deixassem de molhar o pão na sua sopinha quando as águias jogam. Trocando por miúdos: esperem a contínua descida de venda de bilhetes tanto em casa como fora e, com ou sem truques de bastidores – ver o artigo do Francisco Vaz de Miranda –, esperem também que a Benfica TV perca terreno para a anteriormente odiada Sport TV. Neste momento? Neste momento eu até mais rápido via o Clube Desportivo Palhavã a dar tareia no Sporting na final da Taça de Honra da Associação de Futebol de Lisboa…na RTP Memória…em 1917! É que este Benfica é tão mau que deu toda uma outra dimensão e força à expressão “muda mas é para a bola”. Façam antes outra coisa: mudem mesmo. Por inteiro.

Enzo Pérez, um dos poucos com direito a sofrer in emjogo.blogs.sapo.pt
A gestão deste meu clube é pior do que a de qualquer restaurante que tenha passado pelo “Kitchen Nightmares”. Valha-nos a Bolsa. Mas a Bolsa não controla um passivo que se arranja e desarranja com a entrada de 22 jogadores em Agosto. Deve ser do calor. E quem saiu para equilibrar as contas? Essa é a melhor parte: Hugo Vieira – o “talento indispensável” que durou época e meia e jogou meia-dúzia de jogos –, Luisinho – coitado que nem teve tempo de conhecer o estádio por inteiro –, Rodrigo Mora – ainda cá andava este?! –, Roderick Miranda – só mesmo para o Kelvin dormir ainda mais contente todas as noites aos pés do Pinto da Costa –, Shaffer – nem comento –, Nolito – és tão inteligente, mister… – e Miguel Vítor, entre outros. Vou optar por nem tecer mais considerações porque para benfiquista desiludido e com temor, meio conjunto de maus jogadores basta.

Aproveitemos então a referência a Miguel Vítor e falemos daquele que será o adversário dos encarnados na Europa: os gregos que habitam em Salónica, na Toumba – nome do seu estádio. Gregos esses que hoje contam com o nosso antigo defesa centro. Defesa esse que, em 27 jogos disputados em todas as competições, entrou num total de 20. E fez ainda 5 golos. Um pouco à frente do português anda normalmente o inesquecível Kostas Katsouranis, que fez 23 jogos e apontou dois tentos. Ora, a primeira pergunta é simples: daqui a umas boas semanas voltamos a cortar os nossos próprios dedos na deslocação à Grécia ou seremos finalmente capazes de pôr a cereja no topo do (sensaborão) bolo? A segunda é preocupante: papamos ou não papamos um clube que não tem sequer hipóteses de ser campeão no seu país? A terceira pode levar à loucura: levamos ou não levamos de/na bandeja uma formação que tem como titulares dois antigos jogadores que o Benfica não teve propriamente grande dificuldade em ver partir?

Sentem-se. A comida está servida.

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4 de dezembro de 2013

O que ainda há de campeonato

O povo português apreciador de futebol tem um hábito, de há uns anos para cá, um tanto ou nada – como hei-de dizer?… – irritante: ainda o campeonato não vai a meio e já clube x ou y – ou se preferirem FCPorto ou SLBenfica – tem legitimidade para encomendar as belas das faixas de campeão. Isto deve-se a um fenómeno muito actual e específico que consiste em observar a disparidade da qualidade entre os dois anteriormente referidos clubes e os restantes que também participam do Campeonato Português. E sim, é exactamente essa a expressão a utilizar: “restantes clubes que também participam”. Ora, é que, e como dizia Rui Alves, Presidente do Nacional, em entrevista à RTP Informação – e por alto tento repercutir as suas palavras –, o que deveria interessar aos altos dirigentes nacionais era tornar o futebol português num futebol mais uno, mais coeso, mais bonito e mais profissional. Porque não é por aí que Benfica, Porto ou – olhando para o panorama actual – Sporting perdem espaço. É, sim, por aí que o ganham. Ganham em competição, ganham em menos “autocarros” em frente à baliza, ganham em jogos disputados do primeiro ao último minuto. Ganham com o facto de os outros não se limitarem a participar, mas também a encantar e a disputar lugares cimeiros – quem não gostou de ver o Paços de Ferreira e o Estoril no ano passado?! E pode até ser que, assim, Portugal vá à Europa…e por lá fique, caramba! É que neste momento quem na Liga Europa está, de lá sairá. E quem na Liga dos Campeões está, para a Liga Europa passará! Mas enfim. Vamos ao que interessa.

A bem ou a mal, o Benfica está em primeiro lugar. Juntamente com o Sporting, sim. E a apenas dois pontos do Porto. Tudo bem. Estamos no caminho certo. É saber não tropeçar. E a verdade é esta: a primeira metade do campeonato está praticamente fechada. Com o Benfica ainda vivinho da silva. Com Jorge Jesus a ganhar jogos a pontapé – ainda que com dúbia qualidade – e sem sequer se sentar no banco de suplentes. O que é que está mal então? Não foi assim que o Porto meteu no bolso os dois últimos campeonatos? Tudo bem, nem uma única derrota acrescentaram às contas. Mas o Benfica também só tem uma: primeiro jogo, única falha. Contra o Marítimo. Que está a fazer uma época relativamente desastrosa. Se temos desculpa? Não, não temos. Mas há alguém a praticar melhor futebol do que nós? Há alguma equipa neste campeonato com um plantel tão preenchido como o nosso? Com as opções de qualidade que nós temos? Com a experiência e com o alinhamento táctico que temos vindo a cultivar há já dois, três anos? Não. Para todas as anteriores perguntas. E até acabarmos a primeira volta do campeonato, só temos um verdadeiro quebra-cabeças para solucionar: o Porto. Com a benesse de que os receberemos em nossa casa. E em nossa casa mandamos nós. Chega de facilitismos. Este é o campeonato do bate-pé. E não deixamos de bater o nosso até conquistarmos o que nosso é.

Olhando para o que ainda aí vem, vemos que temos dois jogos contra dois dos três últimos classificados da tabela (Arouca – em casa – e Olhanense – fora). Depois vamos à margem sul enfrentar o Setúbal, clube que ocupa a 12ª posição, mas que, apesar de tudo, já não perde há dois meses (sendo que aí se deixou vergar perante o Sporting num desastroso 0-4). A fechar, as duas cerejas no topo do bolo: primeiro o Gil Vicente, clube revelação deste ano, e depois o clube que todos vêm pondo em causa: o Porto. Ambos os confrontos em casa.

Ainda que longe, é preciso acreditar in bem-me-quer-benfica.blogspot.com
Optando por não me tornar no tal povo irritante que já é campeão ainda antes de o Inverno se começar a sentir realmente frio, aconselho como prevenção para tal maleita altas doses de calma, serenidade, concentração e preocupação com o nosso percurso. Os outros preocupar-se-ão com o deles. Isto com ou sem tochas à mistura, claro. E já agora, minha família benfiquista: não é por estarmos em primeiro (finalmente)… mas se nem nós acreditamos, quem vai acreditar? O Benfica precisa de nós. Talvez seja desta que o futuro se augure mais brilhante. Afinal, Jesus até já sabe jogar com dois esquemas tácticos. E ambos dão vitórias.

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28 de novembro de 2013

O novo “Poker” da Land Rover

Sonha-se com mais um ano em grande. Porque é também em grande que a marca (originariamente) britânica pensa e constrói. São muitas as toneladas a que já habituou os seus entusiastas e em 2014 esperam-se muitas mais, mas na forma de novas tecnologias e detalhes de construção. Sem descurar a portentosa – mas pouco evolutiva – imagem que sempre distinguiu e distingue os já mais de 65 anos da marca.


Uma apresentação feita em dois dias, ao longo das estradas de três países – Suíça, França e Alemanha –, com o objetivo de conhecer os quatro modelos que marcarão o ano vindouro. Como que brincando com os números, a Land Rover fez all in e revelou a sua mão: o reformulado Sport com um 4,4 V8 Diesel; o novo Evoque com caixa automática de 9 velocidades; o Hybrid, primeiro híbrido construído pela marca e com uns entusiasmantes 340 cv; e, para os mais nostálgicos, o acarinhado Discovery com um novo motor V6 a gasolina.

O Range Rover Sport é considerado, entre todo o espólio, como o turbo diesel da performance e da facilidade de condução, independentemente das condições – com direito a uma potência máxima de 339 cv e um binário de 700 N.m. Nas mãos sente-se a sua adaptabilidade a todo o tipo de troços e a jovialidade com que os percorre. É o tipo de veículo que define a diferença entre o prazer de conduzir e a necessidade de o fazer, tendo a brilhante capacidade de conjugar ambos os conceitos.

Equipado com uma caixa automática ZF de 8 velocidades, este SDV8 consegue ir dos 0 aos 100 em 6,9 segundos e atingir uma velocidade máxima de 225 km/h. Construído com alumínio de peso reduzido – o que lhe vale uns elegantes 2400 kg – e equipado com os maiores trunfos tecnológicos no que à segurança e ao conforto diz respeito, o Sport vem definir a linha de construção da marca. Em si concentra todas as mais novas tecnologias de auxílio à condução, como seja o caso do “Reconhecimento de Sinais de Trânsito” que, por exemplo, alerta o condutor para o impedimento de ultrapassar em determinados locais; do “Aviso de Saída de Via”, que aciona uma vibração no volante quando o condutor transpõe os limites da via onde segue; do “Estacionamento Perpendicular”, que especifica se o espaço escolhido é suficientemente amplo para a manobra antes de direcionar o veículo para o mesmo; da “Deteção de Trânsito em Marcha Atrás”, que impede colisões aquando da saída de um lugar de estacionamento; e do “Sensor de Passagem a Vau”, um preferido dos aventureiros, que utiliza sensores colocados nos espelhos exteriores para medir a altura da água quando se atravessa um lago ou riacho.

Para os interessados, os preços em Portugal vão dos 88 aos 150 mil euros, conforme o motor e o estilo escolhido para os interiores. E é aí que tudo ganha mais interesse, graças ao novo Pack Black Design. Este pack encontra-se disponível nos modelos Vogue e Autobiography e incorpora um conjunto de componentes com acabamento Gloss Black. Há alterações para todos os gostos e vão desde o logótipo Range Rover no capot e tampa da bagageira, passando pela grelha dianteira e pelos puxadores exteriores, às (imagine-se!) porcas das jantes – entre outras. Essas mesmas jantes não escaparam a esta tendência personalizável e podem agora ser encomendadas com um novo acabamento e em dois possíveis tamanhos: 21 ou 22 polegadas. No habitáculo germinaram, à semelhança dos campos por onde este Range Rover gosta de passear, algumas novidades e é agora possível ajustar eletricamente a secção superior dos bancos dianteiros, aquecer todos os lugares quando se começa a sentir o frio do inverno e ver um filme relaxadamente, tanto atrás, com os ecrãs opcionais de 10,2 polegadas, como à frente, no ecrã do computador de bordo que consegue criar, com uma tecnologia de tipo dual display, uma imagem para o condutor – que não pode ver conteúdos media enquanto conduz – e outra para o seu acompanhante – que, tal como os passageiros que circulam atrás, tem todo o direito ao entretenimento.

A nona potência do Evoque
Percorrer montanhas, descer desfiladeiros e enfrentar descidas enlameadas é o seu programa para os fins de semana? Mas continua a ser um simples ser humano, com um trabalho das 9h às 18h, uma família e uma casa nos subúrbios? É que a Land Rover aperfeiçoou o veículo já perfeito para si. O Evoque, um dos veículos da marca com mais sucesso de sempre – com mais de 170 mil vendas em apenas 18 meses –, tem hoje um novo e melhorado design, tanto no exterior como no interior, uma “Transmissão Integral Ativa” – só disponível na versão a gasolina –, que permite a ligação automática do sistema de tração integral sempre que o mesmo for necessário, e sete novas funcionalidades de auxílio à condução – as mesmas que o Range Rover Sport. Para além disso, traz ainda consigo melhorias capazes de reduzir o consumo de combustível em até 11,4 por cento e as emissões de CO2 em até 9,5 por cento.

Com um conceito urbano empolgante aliado a uma quase necessidade de aventura, este novo Evoque vem de cara lavada, ainda que sejam muitas as poças por onde o vai querer “passear”. Na versão a gasolina, a forma como liga os seus 240 cv às rodas é estonteante e roça a perfeição. Tudo fruto da famosa caixa de nove velocidades – a primeira instalada num veículo de passageiros – que se adapta rapidamente ao estilo de condução, sem nunca deixar de exigir ao motor o máximo, graças a uma troca perfeita e eficiente entre mudanças. É na altura das ultrapassagens que tal se torna evidente (e indispensável) com transições de caixa instantâneas e em kick-down. A Transmissão Integral Ativa incorpora também a tecnologia e-Diff que distribui o binário entre as rodas traseiras, otimizando a tração e estabilidade.

Este colosso tecnológico vem disponível com dois motores a diesel – os já conhecidos 2.2, um com 150 cv e o outro com 190 cv – e um a gasolina – 2.0 turbo de 240 cv. A nível de equipamentos são quatro as escolhas possíveis – Pure, Pure Tech, Dynamic e Prestige, por ordem de luxos. Depois é optar pela versão cinco portas ou coupé, sendo que só as variantes a diesel disponibilizam transmissão automática ou manual. A baliza de preços vai dos 44 aos 65 mil euros.
 
Híbrido para todo o lado
Cedo se aprende que misturar água e eletricidade não traz os melhores resultados. Acrescente-se ainda buracos, terra, pedras e, por todo o lado, subidas e descidas ímpias e comprove-se, da melhor forma possível, que o novo Range Rover Hybrid é capaz de as enfrentar da mesma forma que os seus “familiares” na Land Rover o fazem. Ou ainda com melhores resultados. Foi assim que o primeiro SUV premium híbrido diesel do mundo ao mundo se apresentou. Com direito a tira-teimas off-terrain nas florestas francesas, houve tempo para tudo: subir e descer colinas enlameadas, trepar por entre pedras e árvores mortas, transpor troços com inclinações laterais de mais de 30º graus e ainda atravessar ribeiros onde a altura da água ultrapassava a cintura de qualquer indivíduo de estatura média. E a verdade é que o Hybrid se portou à altura, com os controlos de tração ativos, as câmaras e os sensores que rodeiam todo o chassi ligados e com um aumento na altura do veículo, de forma a controlar saudavelmente o movimento e a flexibilidade do eixo frontal e traseiro. Prova ultrapassada sem um único arranhão. Complicado foi remover a lama das jantes de 22 polegadas.

O sistema de propulsão deste novo Range Rover incorpora quatro modos selecionáveis pelo condutor – EV Mode, EV Mode Off, Sport Mode e Auto Stop-Start Off –, e conjuga o popular motor de 3 litros SDV6 diesel com um motor elétrico de 35 kW (48 cv) integrado na caixa automática ZF de oito velocidades. É possível portanto oscilar entre condução a combustível e condução a “energia limpa”, se bem que, na realidade, o modo EV, que permite conduzir o veículo exclusivamente com propulsão elétrica, obriga à anulação de quase todas as features do veículo - ar condicionado, monitores na cabeça dos assentos da frente, utilização completa das funcionalidade do computador de bordo – para que possa funcionar...durante escassos minutos.


É no fundo um bom projeto. Mas ainda um projeto. O futuro trará melhorias neste inovador sistema híbrido. Ainda assim, é um veículo que vale por toda a sua multidisciplinaridade. E vale uns respeitosos 142 mil euros.

Discovery mais simples
Para muitos, o melhor ficou para o fim: o Discovery 4 3.0 SDV6. Ficou também aquela que poderá ser a única desilusão do grupo: é que as alterações e melhorias são escassas e cingem-se, na sua maioria, ao design e à construção dos componentes exteriores. Quis a marca britânica que este galardoado ganhasse também uma identidade própria. Retiraram assim o nome “Land Rover” do capot e substituíram-no por “Discovery”. Mas é preciso mais do que isso. A única diferença que vale a pena assinalar deste para o modelo passado é a possibilidade de optar entre duas versões de tração às quatro rodas: ou com a nova caixa de transferência de velocidade única ou com a caixa de transferência de dupla velocidade. Os tipos de motor são dois: SDV6 e TDV6. O primeiro com 211 cv e o segundo com 255 cv, ambos com uma velocidade máxima de 180 km/h e a chegarem aos 100 km/h em 10,7 e 9,3 segundos respetivamente. Os preços vão dos 74 aos 93 mil euros.
Artigo presente na edição de 27 de Novembro do semanário AutoSport

26 de novembro de 2013

Escrever por linhas direitas

Hoje por acaso até dormi bem. Coisa que já não acontecia há umas semanas. Por motivos que para aqui não são chamados e por outros tantos que chamados para aqui não são. Interessa só e somente descortinar a piada cósmica e intrinsecamente cínica que é a nossa vivência térrea. Pois que se dormi bem, mal acordei deram-me os tremores. Sem motivo aparente. Avizinhar-se-á um mau dia?

Não. Nem por isso. Simplesmente o coração não esquece. E há sempre uma parte qualquer profunda no nosso âmago que adormecida nos acorda e nos relembra dos calafrios de outrora. Dos fantasmas que nos assombram as memórias, dos sorrisos que nos roubaram e das lágrimas que em nós despertaram. Assim despertei também. Com a indecisa certeza de que algo não batia bem.

E não batia mesmo. Por sete vezes. De sete vilipendiadas maneiras. Atingindo sete antigas chagas. De um coração recuperado, mas que ainda sofre. O dia foi o de hoje, muda o ano: 25 de Novembro de 1999. E por isso o sofrimento. Por isso o relembrar. Em mim descomemora-se mais um aniversário da maior derrota europeia de todos os tempos do Benfica: o 7-0 contra o Celta de Vigo.

João Vieira Pinto e José Calado no sofrimento contra o Celta de Vigo in record.xl.pt
Oito tenros anos. Recordo que estava a dormir a sesta na sala dos meus avós. Lá acordei, porque já eram mais horas de jantar do que dormir, mas mal sabia para o que estava a acordar. Nem me consegui endireitar sob as ditas almofadas azuis e verdes – para ajudar ainda mais à pintura de tal desastre –, como se antevisse tal cenário decrépito e de cortar o coração. Bom, não tive propriamente de trabalhar nas minhas capacidades de futurologia para tal, porque o primeiro da noite surgiu logo aos 19 minutos e de grande penalidade. Ah, e o segundo e terceiro e quarto entraram ainda antes do final da primeira parte. Responsáveis? Por ordem: Valery Karpin, Makélélé, Mario Turdó e Juanfran. Depois disso, tudo se tornou turvo e confuso. A esperança dentro de mim morreu. E levou consigo um bocado da minha infância e da minha capacidade em confiar. Em todos. E no tudo e no nada, que é o futebol. Continuei deitado. Dormente. Apático. Perdido. A sofrer sem saber ainda como se sofre. Mas assim foi. Assim ficou.

Nesse ano o Celta acabaria por ficar em sétimo na Liga Espanhola e o Benfica em terceiro na Liga Portuguesa, atrás de Porto e Sporting, respectivamente. No que à Taça Uefa diz respeito, os espanhóis mataram o meu sonho na 3ª ronda e ainda tiveram tempo para eliminar a Juventus na ronda seguinte – com outra goleada por 4-0, em casa. Como o Benfica, mas de forma mais gloriosa, morreram nos quartos-de-final, contra os franceses do Lens. O troféu ficou para o Galatasaray.

No entanto, as rosas não têm só espinhos. Na sua coroa passeiam as ânsias dos amores, das paixões e da esperança vívida. Nem tudo é mau. Nem tudo é sofrimento e angústia. E o Benfica também teve as suas vitórias. As suas goleadas. Agora que já falámos da maior derrota de todas, olhemos antes para as cinco maiores vitórias de todos os tempos na Europa: duas em 1965 contra os luxemburgueses do Dudelange, por 10-0 cá e 8-0 lá. Outra em 1968 contra o Valur Football Club, da Islândia. Esta deu 8-1 em Lisboa. Em 1970 outro 8-1 em casa contra o já extinto Olimpija, clube esloveno que em 2005 “ressuscitou” sob o nome Nogometni Klub Olimpija Ljubljana. A fechar as contas o 7-0 contra o Fenerbahçe, em 1975. Mas como nem tudo é passado (longínquo) podemos também recuar a 2009 – ano de e à campeão –, quando o nosso Benfica impôs ao Everton a sua maior goleada de sempre: 5-0 na Luz, a contar para a Liga Europa. Nesse ano haveríamos ainda de chegar aos quartos-de-final, onde o Liverpool nos cortaria as pernas.

Em semana de Champions é preciso recuperar o espírito lutador e perceber que, mesmo na desgraça, há sempre um raio de sol que «lá no céu, risonho vem beijar». Se o nosso destino não for continuar na Champions, seja. Mas a sair, saímos de cabeça levantada como fizemos na Grécia, perante um Olympiakos totalmente vencedor, mas totalmente domado. A Europa a quem a merece. E o ano passado merecemo-la. Quem sabe este ano os deuses não escreverão tortuosamente por linhas direitas...

Artigo presente no sítio de desporto online